Diário da Região

21/05/2018 - 18h39min

COMPORTAMENTO

Em novo livro, psicanalista fala sobre a relação entre dor e esperança

Em novo livro, psicanalista Caio Fábio fala sobre como compreender questões como a relação entre dor e esperança, o papel fundamental da gratidão em meio ao sofrimento e a prática do desapego

O escritor, psicanalista e ex-pastor presbiteriano brasileiro Caio Fábio D'Araújo Filho, mais conhecido como Caio Fábio, lançou o livro O Que o Sofrimento Ensina, publicado pelo selo Academia, da Editora Planeta, em que fala sobre o peso de existir e mostra as várias faces dos problemas encontrados apenas pelas pessoas estarem vivas. Ele fala sobre a famosa crise existencial, em que elas se perguntam o que vieram fazer aqui na terra e qual o grande sentido de tudo isso.

O psicanalista, que é líder e mentor do Movimento Caminho da Graça, em Brasília, se apoia em três pilares. O primeiro é que para viver, as pessoas precisam ter um significado maior que a presente existência. Já o segundo é que homens e mulheres devem aprender que o significado da vida passa pelas pequeninas coisas da existência. O terceiro pilar é que o segredo disso tudo, humanamente falando, é viver entre a visão de que a existência é uma bobagem e, ao mesmo tempo, é sublime.

Diante desses três pilares, o autor mostra que é possível enxergar saída diante das crises existenciais e que ela está nas coisas mais simples. Por mais que pareça clichê, existir ainda é genuíno e depende apenas de se entregar ao que vale a pena. Na obra, o escritor fala sobre questões como: a relação entre dor e esperança, o papel fundamental da gratidão em meio ao sofrimento, o sofrimento no amor, a prática do desapego, livrar-se do fardo da culpa e até o o perigo da depressão. Confira abaixo a entrevista com Caio Fábio.

Diário - Atualmente, as pessoas têm vivido vários conflitos emocionais? O livro é indicado para elas?

Caio Fábio - Absolutamente indicado, completamente indicado, necessariamente indicado, essencialmente indicado (risos). Eu não tenho a menor dúvida, de quem quer que leia esse livro, pensando em cada afirmação, porque cada frase desse livro daria um capítulo à parte inteiro, enorme. É um livro de sínteses, é um sumo, um extrato de percepções que pode ser absorvido de maneira bem lenta, bem meditativa e reflexiva. Quanto mais se faça assim, mais essa leitura valerá.

Diário - Muitos homens e mulheres encaram o sofrimento como algo incapacitante? Por que?

Caio Fábio - A dor é um acontecimento objetivo. Seja de natureza física ou emocional, em qualquer que seja o nível. O sofrimento é a interpretação dessa dor. A dor carrega uma determinada carga de subjetividade, o sofrimento não. O sofrimento fica condicionado a muitas outras coisas. Ele aumenta imensamente com a auto-vitimização, a auto-piedade, ou seja a pena de si mesmo. É o maior combustível para que o sofrimento se torne desproporcional em relação a dor, de modo que a dor é concreta. O sofrimento depende da insegurança, depende do olhar, depende da psicologia daquele que está sentindo a dor. Quando o indivíduo carrega uma estrutura psíquica, espiritual ou mental frágil, toda a dor tende a ampliar-se imensamente pela interpretação auto vitimada, que produz esse sofrimento imenso, paralisante e desproporcional.

Diário - É possível usar o sofrimento como algo positivo?

Caio Fábio - Não só é possível, como é absolutamente indispensável. Porque na vida, todos nós temos todas as formas de sofrimento. Deles, concretas e objetivas nos alcançam, e sofrimentos profundamente desproporcionais querem crescer em nós. Além disso, a nossa estrutura cognitiva não aprende, não internaliza, não projeta quase nenhuma lição que nos fique permanentemente, a não ser pela via da dor, do sofrimento e do processamento da dor e sofrimento como pedagogia, lição, sabedoria. É muito difícil você ver alguém que foi desenvolvendo o melhor do seu potencial, da sua capacidade, tendo sido poupado de todas as formas de dores e sofrimento, passando sem saber o lugar do sofrimento paralisante nem que seja por um tempo.

É muito difícil que daí proceda uma mente solidária, simpática, empática e sensata, no que diz respeito a medidas muito mais sóbrias e equilibradas sobre o significado da condição de dor e do sofrimento humano. A Bíblia que nos diz com clarezas que Jesus ensina assim, os apóstolos também pensaram desse modo quando disseram insofismavelmente que nesse mundo nós teríamos aflições, e que o sofrimento e desenvolvimento decorre do modo de como a gente aprende lidar com a dor e o sofrimento. De modo que não há mestre mais profundo, no que diz respeito ao forjamento de um caráter lúcido, do que a experiência do sofrimento vinculada a uma vontade de aprender com aquele desconforto, com aquela impotência, com aquele limite imposto.

Diário - É verdade que a saída das crises existenciais está nas coisas mais simples?

Caio Fábio - Nós fomos feitos para a simplicidade, por isto, praticamente todas as grandes soluções pra existência e pra vida, vem da apropriação e dos significados mais simples da existência. Eu não tenho a menor disso, que nós continuamos sendo salvos pelo sol, pela lua, pelo sono, pelo amor, pelo abraço. Continuamos a sermos curados pelos encontros verdadeiros, pelas pacificações sinceras, pelas reconciliações. Mas continuamos a sermos curados pelo perdão, pela capacidade de deixar ir, de deixar passar e de prosseguir. Esses são os principais e eternos agentes de cura humana, de cura mental e de expansão de qualquer que seja o nosso melhor e máximo potencial.

Diário - Como podemos ter alegria e paz? Existe uma receita ou um caminho?

Caio Fábio - Intrigantemente, todas as grandes soluções pro espírito, pra mente ou para alma humana vem de entrega, de confiança no fato de que haja um sentido. Quem não tem confiança no fato de que não existe um sentido com "S" maiúsculo, um sentido equivalendo a Deus. Quem não tem isso, tem dificuldades absurdas. No máximo o indivíduo vai cauterizando a dor e se tornando um tanto cínico com o sofrimento, ou mergulha na amargura, ou ainda na depressão. Mas para atravessar isso tudo, você atravessa com confiança, confiança que produz certeza de ser amado. O que gera em você uma consciência imensa de que as coisas cooperam para o bem daqueles que andam com essa entrega, com essa certeza e com essa disposição de fé.

Quem entendeu, creu e deu o passo, que não é o passo intelectual, é um passo de fé, é botar o pé no invisível, no aparentemente nada. Quem fez isso encontra esse descanso, essa paz, que não é ilusiva. Ela fortalece e enrijece você, enquanto você está de olho aberto. Discernindo a realidade e crescendo. Agora, quem não tem essa dimensão, geme, se angustia, se debilita, se enfraquece, se deprime. Ou então, se vai adiante, é porque se cauterizou, se tornou cínico, não é mais capaz de ter empatia, porque começa a sentir raiva de toda a dor, mesmo que seja no outro, de modo que o outro passa a ser outro sofrendo, passa a ser um antagonista daquele que resolveu o problema da sua dor com a amputação, com a cauterização, com cinismo e com dessensibilização.

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