Diário da Região

03/06/2018 - 00h00min

Entrevista

Psicanalista Betty Milan relança obra "O que é o amor"

Primeiro lançamento foi há 35 anos. O livro, que gerou certa polêmica nos anos 80, fala sobre o amor e suas diversas formas como ciúmes, sexo, fidelidade

LAILSON SANTOS Betty Milan
Betty Milan

Publicado pela primeira vez em 1983, "O que é o amor" (Ed. Record), de Betty Milan, relata e interpreta a vivência deste sentimento em suas diversas formas, povos, lendas e costumes. A obra volta agora às livrarias, em junho, com nova introdução e projeto gráfico.

Dividindo o texto em quatro partes - "A paixão do amor", "Os dizeres", "O amor hoje" e "A paixão do brincar", a autora examina os dizeres amorosos, dos momentos leves do eu te amo as aflições do a culpa é sua.

O sucesso da obra foi tanto que um dos capítulos chegou a ser adaptado para o teatro em 1994 com o título "Paixão", em uma peça estrelada por Nathalia Timberg, e também inspirou uma exposição de frases, desenvolvida pelo arquiteto, designer e artista plástico Augusto Livio Malzoni.

Os leitores devem estar curiosos, de lá para cá o que mudou? Na essência, nada. De uma forma ou de outra, o amor ressurgirá sempre", responde a autora na introdução atualizada.

Antes de se tornar escritora, Betty formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo, especializou-se em psicanálise na França com Jacques Lacan e fundou o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro. Além de publicadas no Brasil, suas obras também circulam com selos de França, Espanha, Portugal, Argentina e China.

Neste mês, O que é o amor ganha nova edição, com selo da Record e Betty Milan conversou com a revista Bem-Estar, sobre o quanto o livro 35 anos depois, ainda é atual, sobre relacionamento na era tecnológica e como a liberdade sexual não é suficiente, é preciso ter liberdade subjetiva, ou seja poder dizer não .

Revista Bem-Estar: O que te levou a relançar "O que é o amor", 35 anos depois da primeira edição?

Betty Milan: O livro continuou atual. Havia sido um sucesso de venda na Brasiliense e me pareceu oportuno reeditar porque o discurso amoroso, na verdade, é pouco conhecido no Brasil. Simplesmente porque a literatura é pouco lida. Entre nós o discurso amoroso vigora através da música. Temos grandes bardos, Chico, Caetano, Roberto Carlos São tão bons que são ouvidos no mundo inteiro. Me vali da letra das canções para desenvolver certos temas do meu livro, como o do sadismo no amor.

Revista Bem-Estar: Foi preciso fazer grandes alterações nesta nova edição?

Betty Milan: Quase nada porque o que eu focalizo são os dizeres do amor e, na essência, eles não mudam. De novo mesmo, só a introdução em que eu falo do escândalo que o livro provocou quando foi lançado. Tão polêmico que houve mais páginas escritas na imprensa do que as que eu mesma havia escrito. No posfácio da edição atual há um texto do Gerard Lebrun, um filosofo francês que viveu no Brasil, em que ele evoca Edith Piaf para falar de O que é o amor.

Revista Bem-Estar: Há 35 anos, quando o livro foi lançado, você foi alvo de críticas, principalmente, pelo homens que não consideravam as mulheres aptas a falar de amor. Como foi esse período para você? E hoje, isso mudou?

Betty Milan: Foi por causa do machismo brasileiro que eu fiz a minha formação na França e depois me casei com um francês. Como sou a filha mais velha, fui criada para ter a liberdade de um homem e eu não deixei por menos. Nada é mais importante para mim do que a liberdade e eu me dei conta disso, aos 18 anos, quando vi a Vitoria de Samotrás no alto de uma escadaria do museu do Louvre, a escultura cuja forma é a de uma proa de navio. Vi nela a imagem da liberdade e já então eu me disse que precisava viver em Paris, uma cidade onde as mulheres eram e são livres. Não é por acaso que maio de 68 começou lá.

Revista Bem-Estar: Nos dias de hoje parece que os pais falam e demonstram mais amor, sexo, fidelidade em casa, isso é bom para a nova geração? As crianças vão se relacionar com menos tabu ou é uma falsa sensação e liberdade?

Betty Milan: O que acontece na família é o resultado da revolução sexual dos anos sessenta, ela acabou com a censura. O problema é que as pessoas agora nem sempre sabem o que fazer com a liberdade sexual, que pode até ser usada para tornar o sexo obrigatório. Digo e repito que a liberdade sexual não é suficiente, é preciso ter liberdade subjetiva, ou seja poder dizer não .

Revista Bem-Estar: Na era virtual a vaidade está em alta, as pessoas se mostram mais, querem ser vistas. Para o amor, a forma como nos relacionamentos virtualmente, é algo bom ou ruim?

Betty Milan: A vaidade tem mais a ver com o sexo. Agora, nada impede que o amor se manifeste intensamente através da internet. Isso fica claro no meu romance, O Amante Brasileiro, editado pela Record na Trilogia do Amor. Os amantes trocam e-mails reveladores de um amor profundo. O amor pode se materializar das mais diversas formas. No passado era a carta, hoje é a internet, que dispensa o mensageiro.

Revista Bem-Estar: Ainda nesse universo tecnológico, realmente nunca foi tão fácil trair ao mesmo tempo que nunca foi tão difícil esconder? Os relacionamentos passam por uma desconfiança virtual?

Betty Millan: A desconfiança pode ser real ou virtual, o ciúme que é um sentimento negativo, está no horizonte do amor, é sempre uma possibilidade porque os amantes querem uma coincidência absoluta. Na verdade, eles querem ser um, um só desejo. Quando eles são dois e o desejo nem sempre coincide. Um dos temas do meu livro é este.

Revista Bem-Estar: Mesmo com toda independência que a mulher conquistou, ela ainda sonha com um amor verdadeiro? Há quem, ainda, acredite que é no casamento que se encontra a felicidade plena?

Betty Milan: No amor verdadeiro, a independência existe. Octavio Paz disse num livro chamado A Dupla Chama que o amor é uma aposta na liberdade e é isso mesmo. O amor e o casamento nem sempre coincidem e a felicidade plena é uma ilusão que acaba nos frustrando. Nós estamos sempre em falta de alguma coisa e precisamos aprender a nos satisfazer com o que temos para ser mais felizes.

Revista Bem-Estar: Como você vê os relacionamentos de pessoas do mesmo gênero? E o que você acha das pessoas que, ainda, condenam, criticam e apontam o dedo?

Betty Milan: A questão do gênero hoje se tornou secundária e a posição de quem ainda aponta o dedo se tornou arcaica

Revista Bem-Estar: Para quem não teve oportunidade de ler "O que é amor", em 1983, o que pode esperar dessa nova edição?

Betty Milan: Acredito ter respondido no livro à razão pela qual o amor pode ser cruel e virar ódio, pela qual não suporta a dúvida e nem a desconfiança O livro também permite saber por que nós não vivemos sem o amor, embora ele seja um contentamento descontente.

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