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01/07/2018 - 00h30min

REGIÃO

Fumo e álcool matam 5,7 mil em 10 anos

Esse foi o saldo de vítimas na região de Rio Preto em uma década; em 80,8% dos casos o óbito foi provocado pelo tabaco; em seguida aparece o álcool, com 18,9% das mortes

Fotos: Johnny Torres 29/5/2018 Os amigos Luís e Matheus estão juntos na caminhada de se livrar das drogas; eram viciados em cocaína
Os amigos Luís e Matheus estão juntos na caminhada de se livrar das drogas; eram viciados em cocaína

Maria (nome fictício), 37 anos, começou pelo cigarro por influência do pai, que mesmo após um acidente vascular cerebral não consegue deixar o vício. Depois vieram maconha por influência de amigos, cocaína e, por fim, o crack, que mais a prejudicou. Foram 16 anos de vício e seis de idas e vindas ao tratamento. Chegou a morar na rua e a pesar 57 quilos - hoje, está com 77. "Já parei duas vezes na UPA, quase tive parada cardíaca. Quando tive overdose, a única coisa que pensei foi 'graças a Deus estou de volta'. Às vezes você querer parar, mas a droga abate seu psicológico e seu físico. Às vezes você está na mente 'não vou usar', seu corpo chega a estar tremendo, você está na abstinência louca. Você fala 'só uma', mas sabe que não vai ser só uma", desabafa.

Há um ano e meio limpa, ela se mantém no tratamento que permitiu que não virasse mais uma na estatística e procura ajuda do CAPS AD III - referência na saúde municipal - sempre que sente que pode ter uma recaída. Em dez anos, 5.711 pessoas morreram na região de Rio Preto por problemas causados pelo uso de cigarro, álcool, cocaína, solventes e múltiplas drogas, uma média de 47 por mês. 

A maioria delas foi vítima do fumo, responsável por 4.617 óbitos. O álcool causou 1.085 mortes. Isso significa que as drogas lícitas fizeram 5.702 pessoas, 99,8% do total, perderem a vida. Os números correspondem ao período de 2007 a 2016 e foram levantados pelo Diário junto ao Departamento de Informática do SUS (Datasus). Para chegar aos números relativos às mortes por tabaco, levaram-se em conta também as  estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

De acordo com Maria Cristina Pereira Lima, professora adjunta do Serviço de Atenção e Referência em Álcool e Drogas, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Unesp, para que a pessoa se torne dependente, o efeito da substância sobre o sistema nervoso central tem de ser de prazer. "Posteriormente, quando já dependente, o sujeito fará o uso para afastar ou minimizar os efeitos indesejáveis da abstinência." 

Cada droga tem um perfil, assim como cada indivíduo tem suas características e nessa conta entra também o contexto cultural. Atualmente não existe mais a distinção entre dependência física e psicológica. "A dependência sempre tem um componente orgânico, biológico, que pode e é influenciado pelo contexto social. A droga altera o sistema nervoso central e esta é a base para a dependência."

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução)

Para a especialista, as maiores dificuldades para se livrar do problema são: o acesso ao tratamento, pois não existem serviços de saúde com pessoal treinado em quantidade suficiente; a adesão, pois o caminho é difícil e árduo para o paciente, e a inexistência de uma terapia que sirva para todos os dependentes. "Cada um, em sua particularidade, necessitará de um plano terapêutico singular."

José (nome fictício), de 63 anos, conta que começou pela bebida e depois passou a usar crack e cocaína. "Quase acabei perdendo tudo. A família já estava querendo me abandonar. A bebida me prejudicou muito, afetou o fígado. Deu pedra no rim, cirrose", conta. Há mais de um ano ele faz tratamento no CAPS AD III e consegue manter contato com as filhas. Também dedica-se a atividades terapêuticas, sendo um dos mais ativos da horta. "Faz mais de oito meses que não estou usando nada." Para José, a maior dificuldade é que é preciso deixar de frequentar lugares que são associados às drogas.

Os amigos Luís e Mateus (nomes fictícios), de 30 e 19 anos, eram viciados em cocaína e se conheceram na Associação Madre Teresa de Calcutá. Ambos já perderam amigos por causa de entorpecentes. Luís chegou a ser preso por assalto, crime que ele atribui ao efeito da droga, e Mateus traficou para sustentar a dependência, além de mentir para a família sobre onde gastava o dinheiro que, muitas vezes, era presente da mãe.

"Não tem controle de jeito nenhum. Pensava que eu podia usar só um pino e ia parar naquele, mas depois você quer mais e mais. O dinheiro acaba, você começa a trocar tênis, rouba, manipula sua família. Comecei a traficar também", conta o mais novo. 

A professora Maria Cristina explica que as dependências químicas causam alterações no funcionamento cerebral de modo que a droga passa a ser o centro da vida da pessoa, por isso é possível que o usuário minta para conseguir a substância. "Já se comparou a dependência às drogas a alguém se afogando, que vai tentar de tudo para obter o ar. A comparação não é perfeita, mas a ideia é que o sujeito sente uma necessidade imensa", afirma. "Não se trata de falta de caráter ou 'sem-vergonhice', mas sim de uma doença crônica, de difícil controle, mas que pode ter tratamento."

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