Diário da Região

    • -
    • máx min
27/06/2018 - 22h43min

SOB O SIGNO DO MEDO

Cresce número de pessoas picadas por escorpião

Média de ataques, chega a sete por dia na região de Rio Preto sem que ações e gastos milionários do poder público para enfrentar o problema deem resultado

Mara Sousa 11/6/2018 Marcela Duarte, moradora do Ana Célia, é transplantada do fígado e teme pela segurança dela e do filho, Luis Vicente, de 1 ano
Marcela Duarte, moradora do Ana Célia, é transplantada do fígado e teme pela segurança dela e do filho, Luis Vicente, de 1 ano

Eles são pequenos, com hábito noturno e extremamente perigosos. Seu veneno é capaz de matar em questão de minutos e pode ser encontrado com frequência cada vez maior na região. Os escorpiões se tornaram motivo de preocupação para os moradores, e não por acaso: só nos primeiros cinco meses deste ano foram 214 notificações de picadas apenas em Rio Preto.

Números que servem de alerta. Se somados aos dois anos anteriores, o total de ataques chega a 870 apenas em bairros rio-pretenses, segundo os dados que as Secretarias da Saúde de dez municípios da região repassaram ao Diário por meio da Lei de Acesso à Informação. Na região, o cenário não é menos alarmante. Apenas nos últimos cinco meses foram 1.078 ocorrências, média de sete por dia.

Os ataques frequentes interferem na rotina das famílias. A mãe de Luis Vicente Duarte,  de menos de um ano de idade, toma cuidado redobrado. "Sou transplantada de fígado. Se um escorpião me picar eu posso não sobreviver, ou ter um problema sério por causa do veneno. Além disso, tenho um bebê", diz Marcela Ferreira Duarte.

A mãe conta que recentemente encontrou um escorpião na sala de casa, no bairro Ana Célia, zona norte de Rio Preto, aumentando o receio da criança ser atacada. "Na hora eu agradeci a Deus, porque meu filho não aguentaria a picada de um escorpião amarelo."

Problema que se repete em várias regiões da cidade e que causam não apenas preocupação, mas medo do pior acontecer. Em Nova Granada, no último dia 9 de junho, Antônio Aparecido Sanches Paschole, de 62 anos, não resistiu às complicações de uma picada de escorpião enquanto cortava lenha e morreu. Ele chegou a ser socorrido e levado para UTI cardiológica do Hospital de Base, mas não resistiu.

"No dia do acidente meu pai estava no sítio e foi cortar lenha para colocar na churrasqueira. Era uma diversão para ele, mas quando estava cortando a madeira foi picado no pé. Ficamos chocados, nunca imaginamos isso", diz o filho do seu Antônio, Leandro Basso Sanches, 32 anos.

Leandro conta que o pai começou a sentir falta de ar e ainda dirigiu à procura de socorro. "Ele conseguiu pegar o carro e ir até o distrito de Onda Branca. O pessoal que estava num barzinho ajudou a socorrê-lo e correram até o pronto atendimento de Nova Granada. Depois meu pai foi transferido para Rio Preto. Foi tudo muito rápido", conta Leandro.

Também em Nova Granada, em novembro de 2017, Beatriz de Jesus dos Santos, de 18 anos, morreu depois de ser picada por um escorpião. Ela foi levada para o HB, mas o estado se agravou e a jovem não resistiu.

A rio-pretense Rose Bibbo vive ao lado de um terreno baldio e próxima do ponto de apoio do Ana Célia II. Nos últimos meses já encontrou desde cobra a escorpiões no quintal de casa. "Todos os vizinhos aqui da rua já encontraram algum bicho dentro e fora do imóvel. Desde do começo do ano os escorpiões são o maior problema. Eu tenho tomado muito cuidado, evitado ter entulho em casa e espero que o pessoal da prefeitura nos ajude."

Lixo e veneno

Para o professor do Departamento de Zoologia e Botânica do Ibilce, Antonio Carlos Lofego, 46 anos, o aumento progressivo da população de escorpiões no decorrer dos últimos anos pode não apenas estar ligado ao acúmulo de lixo nos centros urbanos. "O fato é que aparentemente o pessoal está usando muito veneno (produto químico) e parece que, em vez de combater, está tendo um efeito contrário."

"Quando você tenta matar o escorpião, na verdade você pode não está matando ele. O lugar em que o aracnídeo fica é de difícil acesso e o veneno não chega até o animal. Você pode estar matando outras coisas que controlam o escorpião, e esse veneno pode estar indo para rios, matando sapos e lagartixas, por exemplo", explicou o professor.

Lofego diz que a região de Rio Preto apresenta aumento exponencial em relação a notificações de acidentes por escorpião, ao ser comparada com outras regiões do Estado de São Paulo. "Se fosse só o clima não teria esse aumento só em Rio Preto. Deve ser uma questão de manejo, de limpeza urbana, de como as pessoas estão lidando com o problema".

O professor ressalta que para o escorpião existir são fundamentais dois aspectos: abrigo e alimento. Em relação a alimento, o "cardápio" inclui baratas e insetos. Já os abrigos são ambientes escuros, como lixões que se proliferam pela cidade e criam condições favoráveis de moradia e reprodução. "Se você diminuir a quantidade de abrigos vai diminuir a população de escorpiões, pois não vai ter como ele se abrigar."

Os escorpiões também usam abrigos subterrâneo, galerias de esgoto e água, locais bem protegidos. "Como forma de prevenção, as pessoas devem vedar todos os acessos que permitam que ele chegue dentro de casa. É muito comum o escorpião chegar pelo ralo do banheiro e até pela janela", orienta Lofego.

(Colaborou Rone Carvalho)

Socorro deve ser imediato

Mara Sousa 11/6/2018 Moradores reclamam de escorpiao no Bairro Ana Celia - Marcela Duarte e o filho Luis Vicente Duarte 1 ano
Moradores reclamam de escorpiao no Bairro Ana Celia - Marcela Duarte e o filho Luis Vicente Duarte 1 ano

O socorro rápido é ponto primordial para a vítima picada. O veneno tem efeitos diversos no organismo, mas o do escorpião amarelo (Tityus serrulatus), o mais encontrado na região, é um dos mais potentes.

"O efeito do veneno depender também do tamanho da pessoa - quanto menor o corpo, maior o efeito, além da quantidade de veneno. Sem se alimentar o escorpião vai ter mais veneno e o efeito vai ser mais forte", diz o professor Antonio Lofego.

A sensação no local da picada é de queimação e avermelhamento. Sintomas como alteração da temperatura corporal, suor constante e agitação são comuns. Em casos assim, o mais indicado é procurar a unidade de saúde o quanto antes. (Colaborou Rone Carvalho)

 

Região com altos índices

Em levantamento realizado pelo Diário em dez cidades do Noroeste Paulista foi constatado o aumento gradual do número de casos registrados de acidentes causados por escorpião nos últimos meses na região. Ilha Solteira foi a que registrou maior aumento em comparação as outras cidades pesquisadas.

Na cidade, foram 31 casos em 2016 e 65 no ano passado, um crescimento de 109%. Só nos primeiros cinco meses desse ano, foram registrados 41 notificações, número que ultrapassou os casos de todo ano de 2016.

Entre as cidades pesquisadas, Novo Horizonte e Olímpia foram as únicas que apresentaram queda em relação ao número de notificações de acidentes causados por escorpião, entre 2016 e 2017. Em contrapartida, Rio Preto apresentou aumentou de 34% do número de casos, passado de 280 casos para 376.

Crescimento que preocupa e assusta ao ser analisado ao decorrer dos anos. Em 2016, somadas as dez cidades registraram 1.685 casos, já em 2017, 2.120 notificações. Nesse ano, só nos cinco primeiros meses foram 1.078 casos no noroeste do estado.

(Colaborou Rone Carvalho)

Ação isolada não resolve

Mara Sousa 18/6/2018 Ponto de apoio no Ana Celia
Ponto de apoio no Ana Celia

Para o professor do Ibilce Antonio Lofego, um contrato em caráter emergencial não deveria ser a única solução para evitar a proliferação dos escorpiões. "É estranho fazer uma contratação emergencial, porque a infestação se mantém progressiva, aumenta de um ano para outro. O correto seria elaborar um plano abrangente. A limpeza urbana é uma dessas ações, mas também tem de envolver outros setores como educação. Também precisariam formar uma equipe e começar a planejar uma ação estrutural para combater esse aumento de forma sistemática."

A análise do professor faz mais sentido ainda quando se observa a realidade da dona de casa Marcela Duarte, moradora do Ana Célia. Há 12 anos que ela mora no bairro, mesmo tempo em que convive com a poluição bem ao lado de casa. "A gente quer uma limpeza nesse ponto de apoio pra valer, e a conscientização das pessoas. No final de semana o ponto de apoio fica fechado e as pessoas jogam lixo onde? Na frente da nossa casa."

Cuidados

Limpar terrenos baldios próximo de casa, colocar telas nos ralos e protetores, evitar acúmulo de lixo e a presença de baratas em casa. Esses são apenas algumas das dicas para evitar a proliferação dos escorpiões. Contudo, ataques também acontecem durante o trabalho, quando por exemplo operários mexem com material depositado em obras sem luvas ou o morador vão mexer em pilhas de tijolos ou telhas sem proteção.

Existem ainda casos em que as pessoas são picadas ao vestirem as roupas e até ao vestir um calçado, por isso a importância de batê-los antes de usá-los. Todas essas medidas não são garantia de 100% de eficácia, mas tendem a diminuir as chances de ocorrer um ataque dentro de casa.

(Colaborou Rone Carvalho)

 

Prefeitura gastou R$ 6,3 milhões

A Prefeitura de Rio Preto fez contrato emergencial, no ano passado, com a justificativa de combater a proliferação de escorpiões na cidade. O serviço, com dispensa de licitação a cargo da Constroeste, teve um custo de R$ 6,3 milhões.

Em que pese o valor milionário da ação, os relatos de moradores apontam para o avanço de infestação. Um crescimento que ocorre na mesma proporção da proliferação de lixões, apesar dos R$ 7 milhões gastos pelo poder público, desde o começo do ano, para "faxinar os lugares alvos de descarte ilegal de lixo e entulho. As equipes limpam numa semana, e na outra as áreas já estão novamente poluídas, num "enxuga-gelo" que suga o dinheiro do contribuinte e ainda favorece os abrigos de insetos e de escorpiões.

A Secretaria de Saúde informou em nota que parte da verba do contrato emergencial foi aplicada em um projeto-piloto de combate a escorpiões, por meio da Vigilância Ambiental. O projeto foi desenvolvido como complemento às ações emergenciais desencadeadas no início do ano, com a remoção de resíduos descartados irregularmente e intensificação das fiscalizações, "com objetivo de determinar a eficácia do combate químico contra escorpiões e sua principal fonte de alimento - as baratas, presentes nas galerias de esgoto".

A ação conta com a parceria do Semae e tem apoio da Unirp. Inicialmente, o estudo está sendo realizado em duas áreas da cidade com maior infestação: Vila Flora e Parque Industrial. Na primeira etapa, os agentes de saúde estão visitando os domicílios, acompanhados de estudantes de biologia da universidade, para buscar escorpiões dentro dos imóveis, fazer a coleta - caso necessário - e realizar um questionário com os moradores.

Na segunda etapa, será aplicado um tipo de inseticida, de uso restrito, nas galerias de esgoto das ruas apenas da Vila Flora. O Parque Industrial ficasrá fora desta ação A estratégia visa comparar as duas áreas, após a aplicação do produto. Depois das duas etapas, o projeto continuará com visitas periódicas da Vigilância a cada dois meses para verificar os resultados. Serão 140 dias de estudo, com término previsto para 29 de outubro.

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para recuperar sua senha no Diário da Região.

Já sou assinante

Para continuar lendo esta matéria,
faça seu login de acesso:

É assinante mas ainda não possui senha?
Não lembro a minha senha!

Assine o Diário da Região Digital

Para continuar lendo, faça uma assinatura do Diário da Região e tenha acesso completo ao conteúdo.

Assine agora

Pacote Digital por apenas R$ 16,90 por mês.
OUTROS PACOTES


ou ligue para os telefones: (17) 2139 2010 / 2139 2020

Cadastro Grátis
Diário da Região
Clique no botão ao lado e agilize seu cadastro importando seus dados básicos do facebook
Sexo
Defina seus dados de acesso