Diário da Região

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24/06/2018 - 00h30min

Infrações graves e ignoradas

Não dar seta ou desobedecer o sinal de pare são o que mais provocam acidentes

Multas a motoristas que não dão seta ou que não obedecem o sinal de parada obrigatória correspondem a apenas 0,1% das autuações no trânsito de Rio Preto; por outro lado, essas infrações são as responsáveis por 7 em cada 10 acidentes na cidade

Mara Sousa 23/6/2018 Apesar de ter sinalização de
Apesar de ter sinalização de "pare", motorista passa direto: infração gravíssima

Seja como pedestre ou na direção de um veículo, você certamente se depara frequentemente com motoristas que viram a esquina sem dar seta, que não obedecem os sinais de "pare" nos cruzamentos ou que mudam de faixa sem dar sinal. Apesar comuns, só 88 condutores foram multados por alguma dessas três infrações neste ano. Elas correspondem a apenas 0,1% do total das 82.751 multas no ano.

São infrações corriqueiras e que parecem 'invisíveis' aos olhos dos agentes de trânsito, mas que são consideradas graves e gravíssimas pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), com previsão de multa de R$ 195 e cinco pontos na carteira de motorista no caso das setas e de sete pontos e multa de R$ 293,47 no caso de avançar o sinal de parada obrigatória (placa octogonal com inscrição "pare").

Mais que isso. Segundo a própria Guarda Municipal, que é responsável por fiscalizar esse tipo de infração, sete em cada 10 acidentes no trânsito de Rio Preto ocorreram após imprudências desse tipo. E isso coloca Rio Preto no topo de um ranking negativo do trânsito. A cidade é líder isolada quando o assunto são vítimas no trânsito.

Segundo levantamento da Secretaria de Segurança Pública, no ano passado, 2.327 pessoas ficaram feridas no trânsito, o que representa um índice de 516 feridos por 100 mil habitantes. Para se ter ideia, Ribeirão Preto, a segunda colocada no ranking, tem um índice bem inferior, de 346 feridos por 100 mil habitantes.

A prova

Em apenas uma hora circulando pelas ruas de Rio Preto, a reportagem do Diário da Região flagrou 60 motoristas que não deram seta para mudar de faixa. Para se ter ideia do quanto essa infração é ignorada. Nos cinco primeiros meses deste ano, a Guarda Municipal só flagrou oito condutores que ignoraram a seta. Já os motoristas que viraram esquinas sem sinalizar com seta, a reportagem flagrou 40 motoristas em uma hora. No ano, a Guarda aplicou apenas 22 multas do tipo.

Agora, a infração campeã e igualmente ignorada é o desrespeito ao sinal de parada obrigatória em cruzamentos sem semáforos. Em apenas 18 minutos, a reportagem do Diário flagrou 248 infrações (veja vídeo). A Guarda multou 58 motoristas por isso neste ano.

"O sinal de 'pare' significa 'pare', mas os motoristas apenas reduzem a velocidade ou simplesmente passam direto. O desrespeito a essa infração pode causar acidentes", disse Felex José Bernardes Felex, engenheiro de trânsito e professor da USP São Carlos.

O especialista acrescenta que 60% dos acidentes ocorrem porque o motorista desrrespeita o "pare". "A descrição nos registros policiais, na grande maioria dos casos, é 'fulano não respeito o sinal de pare e bateu no sicrano'. Hoje, 80% dos acidentes tem envolvimento de motociclistas, que têm o vício de diminuir a velocidade, fazer um pequeno contorno no carro que está passando e não olhar se tem outro vindo, ele prossegue e é atingido".

O que dizem as autoridades

Ao ser questionada sobre a multas de avanço do "pare" e de motoristas que não dão seta, o capitão Ederson Merighi Pinha, do Comando de Policiamento do Interior-5 (CPI-5), disse tratar-se de infrações consideradas "dinâmicas" e que precisam ser flagradas pelas autoridades de trânsito. "É necessário que o agente de trânsito visualize o cometimento da infração. Não é possível lavrar o auto por solicitação de terceiros ou imagens coletadas por particulares. Toda vez que a conduta do infrator é constatada, certamente o auto é lavrado, porém são infrações dinâmicas que necessitam da presença do agente no exato momento do seu cometimento", disse.

O coordenador operacional da Guarda Municipal, Vitor Cornachioni, também apresenta os mesmos argumentos. "Sempre que a guarda flagra, ela autua", disse.

Infrações comuns no dia a dia, mas que geram poucas multas

Entre janeiro e maio 2018

  • Executar operação de retorno em locais proibidos pela sinalização: 4
  • Dirigir o veículo com o braço do lado de fora: 5
  • Parar sobre faixa destinada a pedestres: 8
  • Deixar de indicar c/ antec, med gesto de braço/luz indicadora, mudança de faixa: 8
  • Transitar na faixa ou via exclusiva regulam. p/ transp. públ. coletivo passag.:17
  • Atirar do veículo objetos ou substâncias: 19
  • Deixar de indicar c/ antec, med gesto de braço/luz indicadora, mudança direção: 22
  • Estacionar na contramão de direção: 38
  • Estacionar ao lado de outro veículo em fila dupla: 51
  • Avançar o sinal de parada obrigatória: 58

Fonte: Secretaria Municipal de Trânsito

Outras infrações comuns no trânsito

Além do desrespeito à seta e ao sinal de "pare", existem outras infrações corriqueiras e que também são pouco observadas pelos agentes de trânsito.

Situação tão comum que nem parece errada é quando o motorista entra no veículo, abre o vidro e coloca o braço para fora. Ele corre alguns riscos: pode sofrer acidentes e está mais vulnerável a se tornar uma vítima de assaltos. Além disso, comete uma infração média. O valor da multa é de R$ 130,16, além de gerar quatro pontos na carteira de habilitação do condutor. Nos primeiros cinco meses, somente cinco motoristas foram multados por dirigir com o braço para fora do carro. As autuações não correspondem à realidade. Em uma hora circulando pela região central e avenidas movimentadas, como Ernani Pires Domingues e Bady Bassitt, a reportagem do Diário da Região flagrou 20 motoristas cometendo a infração.

Outra infração comum é aquela paradinha rápida, no meio da rua, para o filho descer na porta da escola. Basta transitar em vias onde há instituições de ensino para flagrar motoristas parando em fila dupla. Duas escolas particulares, na zona sul da cidade, contam com estacionamentos, mas mesmo assim muitos pais de alunos desrespeitam a legislação e param no meio da rua para embarque desembarque. Embora bastante comum, a atitude não resulta em multas com a mesma frequência. De janeiro a maio, 51 motoristas foram autuados por estacionar ao lado de outro veículo em fila dupla. A infração é considerada grave. Além dos cinco pontos na habilitação, o motorista terá que desembolsar R$ 195,23.

A justificativa de quem para em fila dupla é sempre parecida: "É rapidinho. Eles já desceram, não atrapalhou nada", disse uma mãe ao deixar dois filhos adolescentes em uma escola. Outro motorista também usou do mesmo argumento. "A gente está sempre com pressa. Todo mundo para e aproveita o semáforo fechado, ai não atrapalha ninguém".

Para coibir que os motoristas parem em fila dupla, a Guarda faz blitz de orientação nas escolas. "Orientado e sanando o problema no local, não há a necessidade de multar. Se a gente volta na mesma escola e constatamos que esse mesmo pai que já foi orientado está parando de novo em fila dupla, aí, sim, a gente autua", disse Cornachioni, acrescentando que "há casos isolados quando a gente não está na porta da escola. É uma questão de educação". (TP)

 

Educação é a chave para mudar o jogo

São justamente a desculpa de que "todo mundo faz isso" e a resistência dos motoristas em mudar de comportamento os fatores que dificultam a construção de uma cultura de educação no trânsito.

As crianças e os adolescentes de hoje observam todas as atitudes dos pais. Se o pai é prudente e obedece as leis do trânsito, há grande chance de a criança se tornar um bom motorista no futuro. Mas se o pai recorre ao famoso jeitinho e continua cometendo infrações, essas atitudes só vão fazer prosperar a falta de respeito no trânsito.

"As crianças aprendem as regras do trânsito nas escolas e elas acabam se tornando fiscais dos pais. Por isso a importância de cursos de educação no trânsito nas escolas. Se a criança não souber o que é certo e conviver com pais que não respeitam o trânsito, quando ela crescer certamente será um motorista igual", disse José Bernardes Felex, engenheiro de trânsito e professor da USP São Carlos.

A Guarda Municipal informou que está formatando um trabalho para conscientizar as crianças sobre as leis de trânsito. "Estamos elaborando palestras para crianças que serão ministradas na volta às aulas para que elas reproduzam para os pais", afirmou o coordenador operacional da Guarda, Vitor Cornachioni.

A publicitária Fernanda Mendes vive isso na pele. "Meu filho tem 5 anos e já está aprendendo sobre trânsito na escola. Quando estamos juntos no carro ele observa os outros carros e me pergunta: 'Mãe, por que aquele carro não deu seta? Por que passou no vermelho?'. Assim realmente vai ser muito difícil formar bons condutores. Estamos cercados de motoristas que dão má influência às crianças."

Na opinião do engenheiro José Bernardes, a fiscalização eficaz também é um fator que ajudaria na construção de um trânsito melhor. No entanto, para isso, os agentes precisam estar equipados, inclusive para ajudar a flagrar infrações corriqueiras, como a seta e o avanço do pare.

"O agente de trânsito demora muito tempo para preencher uma única multa. Não há pessoal suficiente para fiscalização de trânsito e o aparelhamento com câmeras de vídeo, por exemplo, ajudaria nesse trabalho", diz.

 

TIPOS DE MULTAS

De janeiro a maio de 2018

  • Geradas por radares: 64.554
  • Aplicadas por agentes de trânsito: 18.197
  • Total: 82.751

Fonte: Secretaria Municipal de Trânsito

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