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12/06/2018 - 19h06min

COMPORTAMENTO

Envelhecimento da população LGBT é foco de bate-papo no Sesc

Escritor e ativista João Silvério Trevisan discute nesta sexta-feira, no Sesc, junto com a especialista em gênero Marisa Fernandes, o envelhecimento da população LGBT

Divulgação
"A visibilidade sempre foi muito complicada de modo que o envelhecer é sempre visto com muito susto", afirma João Silvério

Envelhecer assusta a maioria. O corpo vai ficando desgastado e a realização de algumas ações e tarefas mais difícil. Há, ainda, toda a questão do despreparo do mundo para uma população mais velha e a discriminação que a terceira idade sofre. Essa situação é ainda mais complicada para grande parte da população LGBT, que, além de lidar com essas dificuldades, precisa vencer preconceitos e a invisibilidade instaurada pela sociedade.

Para ajudar a jogar uma luz na questão, o Sesc Rio Preto realiza nesta sexta-feira, 15, às 15h, o bate-papo Ausências na Velhice LGBT, com o escritor, jornalista, cineasta e ativista LGBT, João Silvério Trevisan, e da mestre em história social e especialista em gênero e família, Marisa Fernandes. O encontro pretende discutir o processo de envelhecimento de lésbicas, gays, bissexuais e de pessoas trans, considerando que as ausências de políticas públicas e redes sociais de apoios são maiores ainda no universo da velhice LGBT.

"Acredito que, pela minha experiência com a população LGBT, a visibilidade sempre foi muito complicada de modo que o envelhecer é sempre visto com muito susto, para não dizer medo, justamente em função da solidão que essa invisibilidade promete. O que quero dizer com invisibilidade é que normalmente as pessoas LGBT têm um histórico familiar muito complicado e conturbado. Isso significa que elas já estão, em princípio, fadadas a viver na solidão por toda a vida", explica João Silvério em entrevista ao Diário.

O escritor não generaliza essa situação, mas afirma que grande parte da população LGBT do Brasil se encontra nesta situação de solidão e invisibilidade diante do outro e das ferramentas públicas que deveriam ser o amparo. "Isso significa que esse processo vai se tornar ainda mais grave com as dificuldades naturais do envelhecimento. Primeiro porque há um natural desgaste físico e psicológico. Então, a tendência à depressão é muito maior além ou por causa das dificuldades físicas. Dessas dificuldades tanto físicas quanto psicológicas, obviamente dificulta uma vida social mais intensa."

Essa é uma referência a uma situação média, considerando dados mais generalizados. No entanto, os problemas são diferentes dentro da própria comunidade LGBT. Primeiro que não acontece com todo LGBT de terceira idade. Segundo que cada letra tem sua própria batalha diante da sociedade.

"Obviamente, transexuais e travestis terão uma redobrada dificuldade por conta dos redobrados problemas já enfrentados por homossexuais em geral. Mas todas as discussões na atualidade em torno das questões de identidade de gênero têm trazido à tona, também, com muito mais força, a questão tanto da saúde de transexuais quanto da sua inserção social. Isso significa que se está preparando um pouco melhor o envelhecimento de transexuais", diz João Silvério.

Já no caso de homens e mulheres gays, o escritor afirma que não há nada pensado para essas pessoas, principalmente porque, em termos de saúde pública, eles são diluídos em um contexto de envelhecimento ou de terceira idade geral. "Ou seja, as especificidades das vidas de mulheres e homens homossexuais são pouco visualizadas e pouco conscientizadas. É muito fácil, portanto, as velhices de homossexuais se tornarem muito mais difíceis. Inclusive por conta das dificuldades inerentes ao relacionamento social dentro da própria comunidade."

Segundo João Silvério, o homem ou a mulher gay têm a possibilidade de uma velhice acompanhada pelo companheiro ou pela companheira. No caso da morte dos companheiros, o problema reincide. "O mesmo pode ser dito àquelas e àqueles que não têm contato com a família e nunca tiveram seus parceiros. A essas pessoas sobra apenas a possibilidade de um círculo de amizades. E na terceira idade, obviamente, a tendência é que o círculo de amizade seja todo de envelhecimento."

Essa falta de olhar é motivada especialmente por um fator, garante o ativista: o preconceito. "Mesmo quando essas pessoas podem ser colocadas em um asilo ou numa casa de repouso para idosos, elas continuarão sendo discriminadas e em isolamento porque não têm um círculo social disponível nesses locais que tudo leva a crer que são bastante preconceituosos, para não dizer homofóbicos, já que a sociedade tem um extrato homofóbico e uma heteronormatividade que frequentemente não imagina que possam existir homossexuais idosos."

E esse é um problema que afeta toda a população LGBT, sem distinção de classe, mas há níveis diferentes de impacto. "Imagina como é uma situação dessas em uma periferia ou em uma cidadezinha distante. Ou a pessoa continua na invisibilidade sofrendo uma situação de pressão psicológica extrema ou sai desse lugar e vai tentar uma solução com todas as dificuldades inerentes à idade."

Ajuda está dentro da própria comunidade

Para João, uma saída é se inspirar em outros países e, dentro da própria comunidade, procurar formas de cuidar e ajudar. Um exemplo é os Estados Unidos, que possui grupos de pessoas LGBT que se alternam para fazer visitas e manter contato com esses idosos que vivem solitários.

O problema, aqui, é justamente a falta de apoio dentro da comunidade, o que é acentuado no Brasil pela falta de consciência da população LGBT diante desse problema. "Essa é, provavelmente, a última ponta dos problemas LGBTs. Já existem muitos debates e providências com relação aos adolescentes. Travestis e transexuais também. Mas não vejo, além de conversas muitos vagas, nada a respeito do acolhimento à comunidade LGBT de terceira idade", analisa João.

Segundo ele, isso também é resultado do medo que essa comunidade tem de envelhecer. "É um horror defensivo, obviamente, é um horror de pânico. Não é que seja um preconceito em si. O preconceito acontece justamente porque essas pessoas não conseguem imaginar como será sua velhice. Por medo, elas têm medo sequer de imaginar. Isso faz parte desse desamparo geral em que vive a comunidade LGBT."

Além disso, os LGBTs brasileiros ainda estão atrasados quando se trata de consciência diante das próprias dificuldades, garante João. Isso é resultado de um início tardio do movimento pelos direitos homossexuais que ainda foi restrito a uma parcela da população mais ligada à classe média.

"A coisa só começou a tomar um rumo um pouco mais voltado para a população em geral, mesmo que de uma maneira indireta, com as paradas, em que todo mundo participa e dá a cara para bater. Essa é uma questão muito positiva na história dos direitos homossexuais no Brasil. A existência das paradas LGBT em inúmeras cidades do Brasil inteiro."

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