Diário da Região

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08/07/2018 - 00h30min

TEATRO

A arte sem medo e de resistência de Maikon K

Com o espetáculo O Ânus Solar, artista de Curitiba promete experiência intensa sobre a violência e a sexualidade humana

Lauro Borges/Divulgação O Ânus Solar é inspirado na obra homônima de Georges Bataille
O Ânus Solar é inspirado na obra homônima de Georges Bataille

Um dos espetáculos da edição 2018 do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (FIT) que mais tem despertado a curiosidade do público é O Ânus Solar. A performance de Maikon K, que será apresentada em duas sessões, uma no domingo, 8, e outra na segunda-feira, 9, no auditório da Swift, foi a primeira a ter seus ingressos esgotados, com menos de 24 horas do início das vendas.

Inspirado na obra homônima de Georges Bataille, que em seus escritos aborda o erotismo, a morte e a dimensão interior da experiência humana, O Ânus Solar é descrito como uma experiência intensa em torno da violência e da sexualidade humana. No espetáculo, o artista apresenta o ânus como tudo aquilo que rejeitamos em nós, a cegueira desesperadora e reveladora.

Transitando pelas mais diversas linguagens artísticas - canto, artes visuais e teatro -, Maikon K usa O Ânus Solar como uma forma de resistência, algo comum em sua trajetória como artista que não tem medo de se posicionar e questionar.

Em julho do ano passado, Maikon K foi notícia em todo o Brasil e até fora dele. Teve a apresentação do seu espetáculo DNA de DAN interrompida pela Polícia Militar, em Brasília. Ele foi detido sob a justificativa de que estava praticando ato obsceno pelo fato de que sua performance apresentava nudez.

Em entrevista ao Diário, Maikon K fala sobre a performance, inspirações, resistência, corpo e censura.

Diário da Região - Maikon, para começar gostaria que nos explicasse um pouco sobre O Ânus Solar e o que o levou a criar uma performance inspirada na obra de Georges Bataille.

Maikon K - Eu li o texto O Ânus Solar há mais de dez anos e fui absorvido por ele. É o primeiro texto publicado de Bataille, isso foi em 1929, e é muito diferente de todos os seus outros textos. É uma prosa poética de poucas páginas e não segue um gênero literário definido. Para mim, é uma visão alucinatória de Bataille, discorrendo sobre os vegetais, os astros, a Terra, o sexo, a relação do ser humano com essas forças. O que mais me impressionou foram as imagens que Bataille oferece nesse texto, e sua suposição de que o ser humano deveria ter um outro olho no topo da cabeça, mas que esse projeto falhou originando a glândula pineal, que seria um terceiro olho adormecido. Por isso não podemos olhar diretamente para o sol, não suportamos encarar a luz nem a escuridão.

Diário - Seu espetáculo é uma adaptação do texto de Georges Bataille cuja descrição afirma evocar as forças da natureza, do sexo, do primitivo e do sagrado. Como esses elementos se fazem presentes na sua performance?

Maikon K - Não se trata de uma adaptação do texto de Bataille, eu não utilizo suas palavras. Eu me inspirei no texto de Bataille para criar uma dramaturgia original, na qual eu evoco algumas imagens presentes no livro: vulcões, a rotação terrestre, a busca pelo êxtase, a morte e o sexo. Eu digo que o espetáculo é um rito barroco neomedieval, pois eu me relaciono com vários materiais, há um excesso de informação, um discurso caótico, não há uma linha de pensamento única. E é também uma mistura de missa, cabaré, programa de auditório, musical, confissão, formas diversas de se dirigir à plateia. Este trabalho é como um espelho quebrado em muitos pedaços, cada parte oferecendo uma visão diferente.

Diário - Como você absorveu e reapresentou os contextos e elementos de Bataille nessa performance?

Maikon K - Para Bataille, o erotismo pressupõe sempre uma violação, um desejo de destruir o outro e, por um momento, dissolver a separação entre os seres. O erotismo representa um aspecto interior do ser humano, e não está nos objetos, mas, sim, naquilo que projetamos sobre eles. O êxtase é uma tentativa de alcançar o sagrado e romper com nossos próprios limites. Dito isso, eu trago para o espetáculo uma violência calculada, uma vontade de dilacerar meu corpo e a lógica do espectador, deixando-o confuso e aturdido em meio a tantas sensações diferentes. E há uma ironia com os rituais religiosos de massa, que utilizam o êxtase para arrebanhar pessoas. Podemos buscar o êxtase na religião, no sexo, nas drogas, no consumo, na arte. O texto de Bataille está presente como uma força impulsora, que perpassa todo o espetáculo.

Diário - O ânus é apresentado pela performance como tudo aquilo que rejeitamos em nós. Por que há essa concepção e esse medo de uma parte do corpo de todo mundo?

Maikon K - Bataille desenvolveu uma teoria um tanto engraçada e absurda, mas que é uma metáfora interessante. Ele diz que, quando éramos primatas, tínhamos o ânus exposto como o de certos macacos babuínos, que têm as nádegas protuberantes. Ao longo de nossa evolução como humanos, o ânus foi se escondendo entre as nádegas para que a coluna ficasse ereta, e o escândalo do ânus foi transposto para nossos rostos, no modo como usamos a boca e nos expressamos. O ânus passa a ser uma parte do corpo com a qual evitamos o contato, tornou-se um tabu, uma parte proibida e adormecida, ligada às fezes e ao pecado da sodomia. Mas esse orifício esconde um conhecimento, pois é uma parte de nosso corpo, com sensações próprias e terminações nervosas. Voltar-se ao ânus, ao cu, é transgredir os limites da moral, da higiene, da religião. É desmistificar nosso corpo e nossa psique. É libertar-se de muitos conceitos.

Diário - Pode falar um pouco sobre essa performance como forma de resistência e o quanto ela foi inspirada pelo atual contexto de censura diante da arte e do corpo.

Maikon K - Essa performance foi criada para espaços alternativos e com pouca estrutura, pois não me interessava ter que correr atrás de um teatro ou de uma instituição cultural para pedir que apoiassem meu trabalho. Eu não queria abrir concessões para me adequar a um espaço cultural. Pois hoje em dia há uma censura velada, uma censura que foi introjetada nas instituições que apoiam as artes. As instituições estão com medo de apoiar projetos radicais e sofrerem represália por parte de setores conservadores que têm apenas um poder: o de serem consumidores.

Então muito se fala hoje em dia sobre como é importante manter a arte livre, sem censura, mas poucas instituições apoiam mesmo projetos artísticos radicais. Eu tenho a consciência de que essa peça não vai circular tanto quanto eu gostaria pelo Brasil, a começar pelo título, mas esse era meu objetivo inicial e eu não abro mão dele: a cena é um território de liberdade absoluta e de responsabilidade também, responsabilidade sobre aquilo que é dito em cena. E eu me responsabilizo. Por isso fico muito feliz de estar vindo ao FIT com esse trabalho, pois sei que talvez seja uma das poucas vezes que um festival vai acolher essa obra, pois hoje em dia há medo por todos os lados.

Diário - Por falar em corpo, suas obras tendem a exigir bastante do seu próprio corpo. Por que você gosta de usar sua própria figura e testar ao máximo seus limites?

Maikon K - Eu não diria que eu "gosto", mas que foi um caminho natural pra mim, pois o corpo é a única coisa que um ser humano tem, mesmo que temporariamente, pois um dia esse corpo morre. E todas as instituições que representam alguma forma de poder querem um pedaço desse corpo: a igreja, a família, o Estado, a escola, o mercado, a medicina, todos querem legislar, ordenar, subjugar, hipnotizar, anestesiar esse corpo. Me interessa ver até onde eu posso ir com meu corpo para criar outras realidades, outros modos de estar no mundo, tentar me livrar das amarras. Isso só é possível pelo corpo, pois é no corpo que vivemos e é com ele que atuamos. Então eu sempre tento colocar novas questões para meu corpo responder, ou vice-versa, o corpo coloca suas questões para mim.

Diário - E como o corpo tem a capacidade de alterar percepções e como isso é atingido durante O Ânus Solar?

Maikon K - Um corpo em cena não é o mesmo que vive cotidianamente. A cena é um lugar de potência concentrada, e o corpo é que ativa e constrói essa outra realidade efêmera. Então um corpo que se coloca de outro modo diante de outros corpos vai criar um deslocamento de percepção, pois cada corpo se reconhece em outro corpo. Meu corpo passa por algumas situações em cena com o intuito de estimular sensações diversas nos outros corpos presentes. Isso pode ser feito através da fala, do canto, em relação com objetos e materiais, e na própria comunicação com o público, que também modifica meu corpo. Por isso digo que meu trabalho é instaurar um rito. Num rito, todos estão inseridos e sentem as consequências de uma ação.

Serviço

  • O Ânus Solar, domingo, 8, e segunda-feira, 9, às 20h30, no Auditório da Swift. Classificação indicativa 18 anos

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