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15/07/2018 - 00h00min

Entre Livros e Palavras

Confira narrativa que traz os últimos dias de Machado de Assis

Na narrativa, o isolamento social e afetivo de Machado é atribuído à uma espécie de "ódio entranhado da vida", que não o deixa conceber a harmonia e o prazer do matrimônio

Divulgação Tradutora Patrícia Reis Buzzini
Tradutora Patrícia Reis Buzzini

Depois de tanto ouvir falar sobre o novo livro do aclamado professor, historiador e crítico literário Silviano Santiago “Machado” resolvi jogar-me na prevista empreita de leitura. Ancorada nos primeiros anos do século XX, a narrativa descortina os últimos dias do escritor Machado de Assis, mesclando pesquisa biográfica, romance e ensaio ao longo de 424 páginas. Como pano de fundo, relembramos a história da cidade do Rio de Janeiro – antiga capital federal – durante o processo de modernização imposto pelo governo republicano. Nesse contexto, somos apresentados a um Machado profundamente melancólico, sofrendo com crises de epilepsia e com a dor da perda de sua amada esposa Carolina:

O lento desaparecimento de Machado de Assis lembra o ator que, tendo mudado de roupa no camarim, senta-se diante do espelho e vai desaparecendo por detrás da maquiagem branca à medida que vai aplicando camadas e mais camadas de creme na face. Machado de Assis é o mímico, o verdadeiro, legítimo e anônimo protagonista deste romance. (p. 66)

No chalé alugado no bairro do Cosme Velho, Machado vivia sozinho, acompanhado por duas criadas. Apesar de tudo, o mulato carioca, funcionário público e presidente da Academia de Letras ainda suscitava sentimentos de inveja e de admiração. Dentre os fatos mais intrigantes mencionados na obra está a forte amizade entre Machado de Assis e Mário de Alencar, filho do escritor José de Alencar. Graças à influência do ilustre amigo e confidente, o jovem Mário é aceito como membro efetivo da Academia Brasileira de Letras. No entanto, passa a sofrer críticas ferrenhas da imprensa local, que questiona a sua indicação. Igualmente atingido pela epilepsia, Mário torna-se cada dia mais solitário e amargurado em face do indiscutível talento de Machado:

Mário inveja o velho e indestrutível Machado e ambiciona – como antes cobiçava o poder e o dinheiro dos políticos – sua vida produtiva, regrada e austera. Observa-lhe com atenção o comportamento diário. Destrincha o método de trabalho que o leva ao ideal dum saber eclético, complexo e profundo. (p. 164)

Na narrativa, o isolamento social e afetivo de Machado é atribuído à uma espécie de “ódio entranhado da vida”, que não o deixa conceber a harmonia e o prazer do matrimônio. De acordo com o autor, esses sentimentos reverberam em várias obras de Machado, especialmente no último romance, “Memorial de Aires”, publicado poucos meses antes de sua morte.

Alinhavando fatos reais e fictícios, há fotografias e recortes de jornais e revistas da época, que funcionam como uma espécie de hipertexto e aguçam o interesse do leitor. No entanto, o excesso de informações e detalhes históricos também podem surtir efeito dispersivo. Para ilustrar a transição do regime monárquico para o regime republicano, a falência de muitos e o rápido enriquecimento de outros, o autor resgata um artigo do ilustre poeta Olavo Bilac, publicado na revista Kosmos de 1906:

É em banquetes que os presidentes eleitos apresentam sua plataforma, é em banquetes que se fundam partidos, e é em banquetes que se fazem e desfazem ministérios. São banquetes fartos, magníficos, em que se gasta dinheiro a rodo; e isso não se admira, porque neles é sempre o povo quem paga o pato... ou o peru. (p. 221)

Enfim, Machado é uma contribuição generosa à memória de um dos escritores mais importantes do nosso país e de quebra, levamos bem mais do que esperávamos.

Ficha Técnica

  • Título original: MACHADO
  • Autor: Silviano Santiago
  • Páginas: 424
  • Lançamento: 7/12/2016
  • Selo: Companhia das Letras
  • Preço médio: R$45,00

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