Diário da Região

16/09/2018 - 00h00min

Entre Livros e Palavras

A trégua, de Mario Benedetti

"Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida"

Johnny Torres Patrícia Buzzini, que comanda blog de literatura no Diário da Região: ‘As pessoas são apresentadas aos clássicos da literatura nacional, mas e os contemporâneos? Senti carência em relação à divulgação.’
Patrícia Buzzini, que comanda blog de literatura no Diário da Região: ‘As pessoas são apresentadas aos clássicos da literatura nacional, mas e os contemporâneos? Senti carência em relação à divulgação.’

Alguns livros são como troféus, e posso dizer que acabo de agregar mais um a minha estante. “A trégua” foi publicado em 1960 e é o mais famoso romance do aclamado poeta e escritor uruguaio Mario Benedetti, falecido em 2009. Escrito em formato de diário, apresenta a história de Martín Santomé, um viúvo opaco e prestes a se aposentar que, após vinte anos, apaixona-se novamente por uma mulher bem mais jovem. Levado às telas de cinema pelo diretor Sergio Rénan, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1974. Com um discurso leve, Benedetti é considerado uma espécie de “escritor cúmplice”, cúmplice dos leitores e crítico do contexto histórico e político de sua época. Além disso, o autor revela uma preocupação constante com a opressão e a situação marginal da literatura latino-americana.

Em linhas gerais, o livro descreve os últimos anos de trabalho de Martín e traz uma série de referências a respeito da monótona rotina profissional do personagem, despido de ambição e acostumado à burocracia do escritório onde trabalha há décadas:

Em meu trabalho, o insuportável não é a rotina; é o problema novo, o pedido repentino dessa Diretoria fantasmal que se esconde por trás de atas, disposições e gratificações de fim de ano, a urgência com que se reclama um informe ou um balancete analítico ou uma previsão de recursos. (...) Que me importa o lucro provável do item Pernos de Pistão no segundo semestre do penúltimo exercício? Que me importa o modo mais prático de conseguir a redução das Despesas Gerais? Hoje foi um dia feliz; só rotina. (p. 09)

Sem especificar o cargo ocupado por Martín no escritório, pode-se observar a tentativa de Benedetti em lançar luz sobre a simplicidade e mediocridade do personagem, como uma metonímia de um país caracterizado pelo marasmo econômico e pelo exílio de seus intelectuais em face da ditadura. Na narrativa, também encontramos algumas reflexões acerca dos males da modernidade, como a corrupção e o tráfico de influências no ambiente político e corporativo:

Porque, na realidade, o suborno sempre existiu, a acomodação também, os corruptos também. O que está pior então? Depois de muito espremer meu cérebro, cheguei à convicção de que o que está pior é a resignação. (...) Antes, só dava suborno quem queria conseguir algo ilícito. Vá lá. Mas, agora, também dá suborno quem quer conseguir algo lícito. E isso significa afrouxamento total. (p. 58-59)

A escolha de Benedetti pelo gênero diário também não parece aleatória. No passado, os Diários Femininos representavam uma possibilidade de expressão sem o risco de confrontos, servindo de refúgio para confissões e segredos. De acordo com Rousseau, a escrita autobiográfica relaciona-se à promessa de exposição das fraquezas e transgressões do sujeito e a busca pela redenção concedida pelos leitores. Observamos assim um protagonista inseguro e angustiado, incapaz de romper com a insipidez de seus dias:

Quantos anos me restam de “ainda”? Penso nisso e me dá pressa, tenho a angustiante sensação de que a vida me foge, como s minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue. (...) Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida. (p.80)

Ao conhecer a jovem Laura Avellaneda, contratada para auxiliá-lo nas tarefas do escritório, o protagonista depara-se com a possibilidade de uma trégua (temporária ou permanente) para a solidão com a qual convivia há anos. Contudo, a memória da primeira esposa, com quem vivera uma “alegre temporada” e o receio do julgamento dos filhos e da sociedade da época desencadeiam uma série de conflitos morais e emocionais. Vale descobrir o desenrolar dessa prova de coragem.

A Trégua

Autor: Mario Benedetti

Tradução: Joana Angelica D´Avila Melo

Editora Alfaguara (180 págs.)

Trecho do livro:

“Em geral, precisa-se de bastante coragem (um tipo muito especial de coragem) para manter-se em equilíbrio, mas não se pode evitar que aos outros isso pareça uma demonstração de covardia.” (p.83)

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