Diário da Região

03/10/2018 - 00h30min

ENTREVISTA

Modelo de saúde é do século passado

A tendência de envelhecimento da população brasileira não tem sido acompanhada de medidas que garantam os direitos desse público, sobretudo no âmbito da saúde pública. Apesar de ocupar lugar de destaque no Estatuto do Idoso - que completou 15 anos no dia 1º de outubro - a garantia de acesso à saúde é um dos itens que mais registra queixas por parte dessa população.

A baixa oferta de políticas de cuidado para idosos que precisam de apoio, como os chamados centros-dia, é um dos gargalos apontados pelo presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Carlos André Uehara. Em entrevista à Agência Brasil, ele destacou a necessidade de uma rede integrada de atenção ao idoso e da formação e capacitação de profissionais para atender a demandas específicas dessa população em diferentes esferas.

"O idoso não é o adulto velho, assim como uma criança não recebe o mesmo cuidado de um adulto novo. É preciso treinar essas equipes que já estão em atuação com conhecimentos gerais em gerontologia, para que possam acompanhar essa população", destaca.

Para Uehara, o modelo de saúde brasileiro "é do século passado", focado em doenças agudas, infecciosas, que eram resolvidas com medicação. Hoje, entretanto, há uma prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e que exigem um cuidado contínuo, ao longo de toda a vida.

Desde 2012, o Brasil ganhou 4,8 milhões de idosos superando, em 2017, a marca de 30,2 milhões de pessoas nessa faixa etária. Com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros, a previsão do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é que, em 2060, o índice de pessoas com mais de 65 anos no país passe dos atuais 9,2% para 25,5% - um em cada quatro brasileiros.

Confira abaixo a entrevista da reportagem da Agência Brasil com o especialista:

Agência Brasil: Como avaliar os 15 anos do estatuto com recorte especial para a saúde do idoso?

Carlos Uehara: O Estatuto do Idoso foi um marco. Até então, não havia visibilidade em relação ao envelhecimento populacional. A gente sempre acreditou que o Brasil era um país jovem. E ele ainda é um país jovem porque ainda não chegamos numa porcentagem alta de idosos. Como o corte mudou para 60 anos [não mais 65 anos], hoje, 14% da população, aproximadamente, é formada por idosos. É um segmento que vem crescendo rapidamente se a gente comparar ao restante da população. Como a gente não conseguiu resolver outros problemas sociais, se não nos planejarmos e nos organizarmos, a questão do envelhecimento só vai piorar alguns dos problemas que temos hoje. Um exemplo óbvio é a previdência. Outro, claro, a saúde. Os serviços de saúde não foram pensados para a população mais idosa.

Temos um modelo de saúde do século passado, quando o que predominava eram doenças agudas, infecciosas, que eram resolvidas com medicação e que eram autolimitadas. Hoje, a gente tem uma prevalência de doenças crônicas não transmissíveis que exigem um modelo de cuidado que deve ser contínuo, ao longo de toda a vida. Se antes o sistema de saúde tinha que estar preparado para tratar, por exemplo, pneumonia, resfriados e meningites, agora, são doenças como pressão alta e diabetes. Doenças que a gente não trata, a gente controla. A gente não cura pressão alta. O paciente vai se manter uma pessoa com pressão alta, mas controlada. O mesmo acontece com o diabetes. 

Agência Brasil: É possível falar em avanços e desafios na saúde do idoso ao longo desses anos?

Carlos Uehara: O envelhecimento da população, no Brasil, é heterogêneo. As populações mais envelhecidas, hoje, pelos dados do IBGE, estão no Sul, onde se concentram os maiores índices de pessoas com mais de 60 anos. Essas cidades, daqui alguns anos, vão ter mais idosos que jovens. Em algumas delas, já existe um olhar para os centros dia, que atendem pacientes com demência, com Alzheimer, com demência vascular, entre outros, e que passam o dia realizando atividades para manter sua autonomia e sua independência.

Também temos, em algumas localidades, pelo Poder Público, a abertura de instituições de longa permanência para idosos, os antigos asilos. Mas estamos falando de um avanço que não é homogêneo. Em São Paulo, por exemplo, temos isso. Já outros estados ainda precisam desse tipo de política. São algumas iniciativas, em algumas unidades federativas. Mas não é um movimento por igual no Brasil todo. Houve avanço em alguns estados, mas existem muitos outros que não evoluíram nesse sentido.

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