Chef Erick Jacquin, do Masterchef, fala da vida e negócios em entrevista
Famoso por reclamar da falta de tempero dos pratos que prova nos programas 'Master Chef' e 'Pesadelo na Cozinha', Erick Jacquin, que é casado com uma rio-pretense, fala sobre trabalho e vida pessoal

Reconhecido pela revista Forbes como uma das 25 personalidades mais importantes do país, Erick Jacquin é um dos mais renomados chefs franceses em atividade no Brasil. Maître Cuisinier de France (a mais alta honraria da gastronomia francesa), o chef chegou ao Brasil em 1994, depois de comandar o restaurante Au Comte de Gascogne, em Paris. Por aqui, ele comandou os restaurantes Le Coq Hardy e o Café Antique, em São Paulo, e inaugurou, em 2004, o La Brasserie Erick Jacquin, escolhido por diversas vezes o melhor restaurante francês da capital paulista e do Brasil.
Erick Jacquin, que também é consultor gastronômico, conquistou a televisão brasileira ao se tornar jurado da competição culinária MasterChef Brasil, na Band desde 2014, e por comandar o reality show Pesadelo na Cozinha. Longe da rotina intensa de gravações dos programas, o chef comanda, hoje, o Président, localizado nos Jardins em São Paulo, que durante o isolamento social está atendendo pelo sistema delivery. Especializado em gastronomia francesa, Jacquin quer atrair todos os públicos para o local com comida a preço justo. Ele também é sócio do Le Bife, que é um restaurante especializado em carnes.
Casado com a rio-pretense Rosângela Menezes e pai dos gêmeos Antoine e Elise, e de Edouard Jacquin, fruto de um relacionamento anterior, o chef está bem ativo no Instagram (@erickjacquin) e compartilhando suas receitas com seus fãs. Há três dias, por exemplo, ele fez uma live com o filho mais velho e fez a receita "Torte tartin" com o seu famoso "tompero". O chef também bateu um papo com a reportagem e falou sobre a sua vida pessoal e carreira neste período de quarentena. Confira abaixo a entrevista com o chef francês.
Diário da Região - Gostaria que contasse um pouco sobre como a gastronomia entrou em sua vida? Quando e como descobriu que essa era a sua vocação?
Erick Jacquin - Eu sempre quis ser cozinheiro. Minha mãe fala que com quatro anos eu brincava com panelas. E aos 14 anos eu tive uma conversa com meu pai e que me marcou muito. Ele me perguntou se eu tinha certeza que queria ser cozinheiro porque eu ia trabalhar no dia em que todos estariam se divertindo. E eu disse que sim, eu tinha certeza. Ele disse que tudo bem, mas que eu ia ter que estudar também porque ele não teve essa oportunidade do estudo. Então, ainda com 14 anos, consegui o primeiro trabalho na área, numa pâtisserie de Dur Sur Auron, local onde nasci, uma pequena e tradicional cidade no centro da França. E aos 18 anos fui trabalhar em Paris. Eu fui embora da casa dos meus pais feliz e orgulhoso de poder fazer minha vida em Paris como cozinheiro. Eu nunca imaginei fazer outra coisa.
Diário - Hoje você é um dos nomes populares no universo dos reality shows de gastronomia. O que o 'MasterChef' representou para a sua carreira?
Jacquin - O MasterChef é um projeto muito especial para mim. Sou muito feliz de participar dele. Mudou minha vida, e ver esse retorno no carinho que recebo dos fãs é muito importante, nas histórias que me contam de que toda semana a família está na frente da TV, todos juntos, às vezes até cozinhando, para se divertirem enquanto assistem MasterChef. Cada temporada tem histórias de vida diferentes, experiências diferentes, provas diferentes. São pessoas, seres humanos ali cozinhando para superar desafios e realizar sonhos. É muito bonito ver isso. Onde vou as pessoas querem me abraçar, pedir foto com biquinho, perguntam dos meus bebês e da Rosângela, minha esposa, do Dudu [Edouard], meu filho mais velho. É um carinho muito especial e eu gosto de atender cada fã porque eles são muito carinhosos. O MasterChef hoje faz parte da história da gastronomia do Brasil. Ele mudou a maneira que as pessoas se alimentam, o modo de viver no país. No Brasil, a gastronomia das casas das pessoas sempre foi arroz, feijão e uma proteína, como o frango ou uma carne. Agora as pessoas cozinham em casa com MasterChef. Uma vez uma menina me parou na rua e falou: "graças a você, pela primeira vez, eu vi meu pai cozinhar em casa". Então, esse foi um dos cumprimentos mais bonitos que recebi, fiquei emocionado. Foi bonito, extraordinário. O MasterChef está reunindo as famílias em torno da mesa.
Diário - Hoje você comanda um programa só seu, 'Pesadelo na Cozinha', e mantém um canal no Youtube. Ainda tem milhares de seguidores no Instagram. Você era um cara conectado na internet antes do sucesso de 'MasterChef'? Teve alguma dificuldade em entrar nesse universo virtual?
Jacquin - O meu canal do Youtube chegou em um milhão de inscritos em seis meses, as pessoas gostaram muito. Mas eu gravo sem roteiro e não edito nada. Eu mostro tudo o que acontece, como o choro dos bebês, se eu preciso parar e preparar a papinha deles, o telefone tocando. Não tem edição. Eu pego os ingredientes e decido a receita na hora. Em três meses estou com quase 500 mil inscritos (www.youtube.com/erickjacquin). Eu ensino as receitas mostrando a minha rotina na cozinha, no restaurante, em casa. Decidi avançar com o Youtube porque é o futuro. A televisão na internet vai ser o futuro. E eu me divirto muito porque eu dirijo, então, eu faço o que eu quero.
Diário - Você atualmente conta com algum empreendimento no ramo da gastronomia. Conta um pouco pra gente desse projeto?
Jacquin - Eu tenho o restaurante Président, que inaugurei em dezembro de 2019, e o Le Bife, que é uma steakhouse e onde também sou sócio. Agora, por conta da crise estamos com delivery como alternativa nesses dois restaurantes que ficam na cidade de São Paulo.
Diário - Você é casado com uma rio-pretense. Já veio a Rio Preto alguma vez? Teve a oportunidade de conferir algum point gastronômico da cidade? O que achou da experiência?
Jacquin - Eu fui num bistrô muito legal uma vez com a minha família, também fomos perto da lagoa. É uma cidade bem cuidada, que tem muita coisa bacana. Eu gosto bastante da cidade, a família da Rô [esposa Rosângela] mora na cidade.
Diário - Como é ser pai de gêmeos após os 50 anos de idade?
Jacquin - Eu tenho um filho mais velho, o Dudu (Edouard), que tem 23 anos e mora na Espanha, que na fase da pandemia ficou na cada da mãe dele, na França. Os bebês não fizeram dois anos ainda. Mas vamos dizer que você tem menos tempo para criar os filhos quando você é pai aos 54 anos. Estou gostando muito, acho que vou ficar mais jovem com isso e viver mais tempo. Estou aproveitando a quarentena para cozinhar para eles e a Rô. Ajudo ela a dar mamadeira para os bebês, dar banho. Estou me divertindo muito de poder ficar mais em casa com a família. Em dias normais eu gravava durante o dia, ia para o restaurante à noite e via os gêmeos entre um compromisso e outro, conciliava. Agora quero ganhar dinheiro com o restaurante Président, que acabei de inaugurar em São Paulo, porque eu tenho dois bebês para criar. Com o Président eu quero ser reconhecido como melhor restaurante francês do Brasil. Os clientes aqui vão economizar uma passagem de avião para França.
Diário - A popularidade também o fez virar meme nas redes sociais. Principalmente por conta daquele episódio do 'Pesadelo na Cozinha', em que um dos participantes desligava o freezer do restaurante à noite. Hoje, há inúmeros memes relacionados aquela cena. Você costuma acompanhar isso? Isso te incomoda de alguma forma?
Jacquin - Os memes me surpreenderam, com certeza. Eu não imaginava que fosse acontecer isso. Mas eu sempre fui muito querido nas redes sociais, todo mundo se diverte com a maneira que eu falo. Eu, geralmente, não agrido ninguém na internet. Eu procuro transmitir uma energia boa, alegria e felicidade para os meus seguidores. Então, deve ser por isso.
Diário - Falando especificamente da cultura brasileira, há aspectos ou até mesmo alimentos que podem ser considerados característicos do Brasil no jeito de fazer culinária?
Jacquin - Quem influencia e inspira as produções dos pratos são as pessoas, os clientes. E tem uma outra parte do Brasil que, lógico, são os produtos, o meu dia a dia, esse país que, hoje, faz parte da minha vida e de tudo o que eu estou fazendo. Com certeza influencia muito no meu trabalho. Eu faço consultoria em restaurantes pelo Brasil, como em Natal (Rio Grande do Norte). Mas eu não uso ingredientes específicos do Brasil nos meus pratos porque eu não vim aqui para adaptar minhas receitas. Eu vim para oferecer a gastronomia francesa para as pessoas. Quem entende de receitas brasileiras são os brasileiros.