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Tecnologia

Confunda o algoritmo, estoure as bolhas

por Gabriel Vital
Publicado em 09/11/2019 às 00:02Atualizado em 29/03/2023 às 15:21
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A dor e a delícia de viver em sociedade é lidar com as diferenças. Ao mesmo tempo em que a divergência é capaz de gerar certos conflitos, é nela que surgem ideias para que os indivíduos evoluam. Mas, de uns tempos para cá, essa relação com o outro parece ter ficado homogênea. Cada um se rodeia por quem pensa e age igual a si e consome informações que corroboram suas percepções sobre o mundo. São as chamadas bolhas, intensificadas com o avanço das redes sociais.

Nesse mundo virtual e algoritimizado, cada usuário do Facebook, Instagram ou Twitter é exposto majoritariamente a conteúdos com os quais se identifica. Isso exclui uma infinidade de outras informações, que não chegam a esse usuário simplesmente porque o algoritmo julga que aquilo não é relevante. É assim que as máquinas, com seus cálculos complexos e sua inteligência artificial, moldam a forma como cada indivíduo vê o mundo e compreende a própria realidade.

O ativista Eli Pariser, cofundador da plataforma de petições online Avaaz.org, em seu livro "O Filtro Invisível: o que a internet está escondendo de você" (Zahar, 2012) diz que essa personalização do conteúdo que chega aos usuários de redes sociais poderia estar restrita à oferta de propaganda. No entanto, esse filtro também molda os fluxos de informação. "Numa época em que as informações partilhadas são a base para a experiência partilhada, a bolha dos filtros é uma força centrífuga que nos afasta uns dos outros", escreve.

De modo geral, os algoritmos das redes trabalham da mesma forma: monitoram sua atividade, suas curtidas, comentários, compartilhamentos e até o tempo que passa diante de uma mesma publicação, sem rolar o feed. A partir desses dados, os algoritmos traçam um perfil do usuário, buscando compreender suas preferências para, assim, direcionar conteúdos que o façam interagir mais e mais com a própria rede.

Esse comportamento faz com que a nossa visão de mundo fique menos abrangente, segundo a mestre em psicologia Etienne Janiake. Para ela, esse processo de olhar para o mundo reforçando uma perspectiva restrita favorece a tendência de criticar e julgar aqueles que não fazem parte dela. "Com isso, a base de uma convivência e sociedade fortalecida e saudável, que é exatamente a diversidade de seus indivíduos, fica comprometida", alerta.

Para a psicóloga, as relações genuínas se constituem de trocas, de compartilhar visões, de se abrir ao outro e de estar aberto a percebê-lo e acolhê-lo do jeito que ele se apresenta. "Com a fixação e estreiteza do olhar, que pode ser amplificada pelas redes sociais, as trocas interpessoais tendem a ficar bastante afetadas, pois tenho a falsa sensação de abertura e diálogo, quando, muitas vezes, estou apenas reforçando as minhas visões estabelecidas", acrescenta Etienne.

Para a pesquisadora em comunicação digital e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Pollyana Ferrari, a formação das bolhas serve à manipulação, que afeta até mesmo aspectos simples da vida, como seu gosto musical. "No Spotify, não ouça só as playlists que ele te recomenda. O aplicativo oferece e você pensa: 'nossa, como ele me entende', mas estará ouvindo sempre a mesma coisa", diz.

Para ela, que é autora do livro "Como sair das bolhas" (Educ, 2018), as bolhas sempre existiram, mas as redes sociais intensificaram esse isolamento. Por isso, a especialista recomenda refletir antes de curtir, compartilhar ou comentar uma publicação. "Se você esperar cinco minutos - que é pouco, mas, no imediatismo das redes sociais, é um tempo enorme - você já dá menos importância para aquilo", explica.

Ao evitar o like imediato, o usuário confunde o algoritmo, o que é um primeiro passo para sair das bolhas virtuais. "Um uso mais reflexivo dessas plataformas ajuda e a gente dribla o algoritmo, porque ele precisa de compartilhamento, de likes, precisa de você olhando", avalia Pollyana.

Etienne acrescenta que, para sair das bolhas, vale a pena questionar a si mesmo: Estou me relacionando com esse assunto ou com essa pessoa a partir de um lugar de abertura e leveza, ou estou tentando encaixar o outro em um espaço rígido e predeterminado? Quando alguém se apresenta com uma visão diferente da minha, consigo perceber que a perspectiva dele pode ser complementar à minha, e não excludente? Sinto-me aberto a reconhecer que estou em constante transformação?