Entre os municípios com mais de 200 mil habitantes, Rio Preto tem a maior proporção de enfermeiros
São milhares de profissionais dedicados ao cuidado de pacientes; De acordo com a Seade, são 3,49 profissionais de enfermagem a cada mil moradores

Rio Preto é a cidade com maior proporção de profissionais de enfermagem a cada grupo de mil habitantes dentre os municípios com mais de 200 mil moradores no Estado de São Paulo. É o que aponta levantamento feito pelo Diário com base em dados da Fundação Seade e do IBGE. Nesta sexta-feira, 12, foi comemorado o Dia da Enfermagem.
De acordo com a Seade, são 3,49 profissionais de enfermagem a cada mil moradores, uma força de trabalho na saúde composta por 1.581 pessoas, superando cidades como Santos, Campinas, Ribeirão Preto e São Paulo.
Para James Francisco dos Santos, presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), alguns fatores explicam o alto número de profissionais na cidade. “Primeiro é a grande infraestrutura de saúde que tem na região. Com isso, há grande disponibilidade de trabalho em hospitais, clínicas, casas de repouso, que faz com que o profissional após formado tenha a possibilidade de continuar trabalhando e morando na mesma região”, considera.
Outro ponto é que várias instituições, tanto públicas quanto privadas, oferecem cursos na área. “E Rio Preto é um lugar bom para morar, é interior, mas uma cidade grande, tem segurança e qualidade de vida. E por ser referência para os demais municípios, isso cria um polo que permite o profissional ter mais de um vínculo empregatício em cidades próximas”, pontua James.
Uma delas é Ana Maria Barbar Cury, de 62 anos, sendo 39 dedicados à profissão, desde agosto de 1983 na Santa Casa de Rio Preto, tendo passado por diversos setores. Desde 2001, ela é gerente de enfermagem, e ministra há 33 anos a disciplina de Primeiros Socorros no curso técnico de enfermagem da Etec Philadelpho Gouvêa Neto.
“Sou apaixonada pelo que faço. O cuidar das pessoas está inserido na minha alma. Outro dia encontrei uma paciente fora daqui, que me olhou e disse: ‘não lembra de mim? Você salvou minha vida muito tempo atrás’, e me abraçou e começou a chorar”, conta Ana Maria. “São muitas as histórias. Ver uma criança nascer, ver um paciente de costas pois está indo embora de alta, não tem jeito de não se emocionar. A gente trabalha com situações ambíguas, vida e morte.”
Esforço
Adele Cristina Betum, de 41 anos, moradora de Guapiaçu, decidiu que trabalharia na área da saúde ainda durante a adolescência, quando perdeu a mãe por conta de um infarto fulminante. Com o auxílio da patroa, Georgia, se matriculou no curso de auxiliar de enfermagem. Desde então, trabalha na Funfarme, que mantém o Hospital de Base, onde sempre atuou no Laboratório Central, que hoje coordena.
Para conseguir o estágio que virou seu emprego, na época, tinha que pagar, e ela não tinha condições de arcar com os custos. Uma pessoa com quem ela foi conversar no HB conseguiu que ela fizesse a capacitação gratuitamente. “A partir desta data prometi sempre dar o meu melhor em tudo que eu fosse fazer e para todos que ali encontrasse.”
Seu maior exemplo de paciente foi o pai, cuja história acompanhou. Ele teve tumores na bexiga e no cérebro, mas acabou falecendo. “Foi uma grande superação em todo o seu tratamento. Continuei estudando e fazendo pós-graduação e consegui pleitear mais um cargo no instituição, como enfermeira clínica em 2015. Muito feliz em poder atuar neste cargo, me empenhando sempre e procurando fazer o meu melhor no que eu podia para todos os pacientes, com o coração aberto em servir e em aproveitar a oportunidade de estar na instituição e fazer o bem sem olhar a quem”, ensina a enfermeira.
Vocação
Priscila Sonego Nobre, de 38 anos, é enfermeira há 12. A vocação se manifestou ainda na infância - sua mãe conta que Priscila adorava as enfermeiras que cuidaram dela quando, ainda pequena, precisou ser submetida a uma cirurgia cardíaca, e desde então ela dizia que seguiria a profissão.
Atua hoje como supervisora do setor de oncologia pediátrica no Hospital da Criança e Maternidade (HCM). Vários pacientes a marcaram, mas uma família deixou lembranças. Quando Priscila estava grávida do segundo filho, conheceu a mãe de uma criança, também gestante, que tinha acabado de receber o diagnóstico de leucemia - e o menino tinha o nome de seu filho mais velho. “No meio do tratamento ele teve uma intercorrência grave, ficou um grande tempo na UTI, esteve entre a vida e a morte várias vezes. Ele, no entanto, tinha uma grande vontade de viver e foi melhorando, finalizou o tratamento e hoje só faz acompanhamento. Está lindo, forte e saudável”.
Categoria busca valorização
Uma das reivindicações da categoria é o piso nacional de enfermagem, que será viabilizado por um crédito especial de R$ 7,3 bilhões no orçamento do Fundo Nacional de Saúde, por meio da lei 14.581/23. Desta forma, o piso será de R$ 4.750 para enfermeiras e enfermeiros, de R$ 3.325 para técnicos e de R$ 2.375 para auxiliares e parteiras.
“Essa é uma demanda antiga. Temos a convicção de que é uma questão de correção histórica. São mais de duas décadas lutando pela valorização do ponto de vista financeiro”, defende James Francisco dos Santos, presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP).
O profissional reforça que a profissão de enfermagem é autônoma e regida por princípios próprios, com conselhos independentes. “O nosso princípio é aliviar o sofrimento.”
Para Ana Maria, enfermeira na Santa Casa, Rio Preto tem um polo muito bom de saúde. “Mas precisam valorizar mais os enfermeiros, profissionais estes que trabalham de sol a sol para cuidar das pessoas e dedicam suas vidas”, defende ela.
Priscila Sonego Nobre, enfermeira do HCM, também considera Rio Preto uma boa cidade para trabalhar. “Temos hospitais maravilhosos, uma saúde de ponta, condições de crescer a cada dia, buscar o conhecimento e o aperfeiçoamento para que possamos desenvolver um trabalho cada vez maior.” (MG)
Dados
Número de enfermeiros a cada mil habitantes nas cidades paulistas acima de 200 mil habitantes
- Rio Preto 3,49
- Santos 3,01
- Bauru 2,56
- Barueri 2,51
- Presidente Prudente 2,47
- Marília 2,46
- Guarulhos 2,41
- Campinas 2,41
- Ribeirão Preto 2,23
- São Paulo 2,18
- São José dos Campos 2,03
- Araraquara 1,95
- Jundiaí 1,91
- Taubaté 1,86
- Mogi das Cruzes 1,73
- Santo André 1,68
- Piracicaba 1,68
- Sorocaba 1,64
- São Bernardo do Campo 1,64
- Jacareí 1,61
- Osasco 1,5
- Americana 1,45
- Cotia 1,43
- São Carlos 1,37
- Limeira 1,36
- Itapevi 1,27
- Indaiatuba 1,15
- Rio Claro 1,09
- Franca 1,08
- Guarujá 1,07
- Diadema 0,97
- Taboão da Serra 0,93
- Mauá 0,88
- Embu das Artes 0,77
- Praia Grande 0,72
- Hortolândia 0,72
- Carapicuíba 0,72
- Sumaré 0,66
- Suzano 0,6
- Itaquaquecetuba 0,56
- São Vicente 0,38
Fonte: Fundação Seade