AGRO DIÁRIO

Incentivo à produção de cacau

Cultivo da matéria-prima do chocolate, em consórcio com outras culturas, é a aposta de produtores rurais da região Noroeste do estado de São Paulo. Tabapuã já conta com 50 mil mudas

por Gabriel Vital
Publicado em 01/06/2019 às 00:30Atualizado em 09/06/2021 às 06:10
seringueiras e cacau, plantação em consórcio no município de Tabapuã (Cristina Cais)
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seringueiras e cacau, plantação em consórcio no município de Tabapuã (Cristina Cais)
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O cacau, principal matéria-prima para a fabricação do chocolate, pode ganhar novas plantações no Noroeste do estado de São Paulo com o incentivo de técnicos e produtores rurais que têm se interessado pelo cultivo do fruto. Uma alternativa para plantio de cacau é o aproveitamento de áreas de seringal, duas culturas que se complementam muito bem em termos de cultivo e de potencial econômico.

Em uma propriedade rural de 150 hectares em Tabapuã, o plantio de cacau em consórcio com a seringueira é pioneiro, com 50 mil mudas do fruto plantadas há cinco anos. A colheita já começou, segundo o gerente e engenheiro agrônomo Francisco Carvalho. Ele conta que a experiência entre o plantio de seringueiras e o de cacau foi importante na geração de recursos, com a perspectiva de aumentar a plantação da matéria-prima do chocolate para 100 mil novas mudas.

"Quando o greening atacou a plantação de laranjas por aqui, pensamos em uma alternativa de nova cultura, então resolvemos investir na seringueira e no cacau. Plantamos 90 mil mudas de seringueira com o objetivo de fazer o sombreamento para o cacau", disse Francisco. Ainda para o bom desenvolvimento do fruto, o produtor aproveitou o espaço para o cultivo de bananeiras, que se desenvolvem mais rápido e ajudam no custo com a produção.

Ele disse que a orientação técnica foi muito importante para o desenvolvimento do cacau em uma região não tão apta, em termos de solo. O produtor buscou essa orientação junto aos técnicos da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), em Ilhéus, no estado da Bahia.

Adonias Castro, do Centro de Pesquisas do Cacau da Ceplac, um órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, destaca os aspectos positivos que o cacau tem para se estabelecer como cultura na região de Rio Preto. Ele explica que tanto o fruto quanto a seringueira são duas espécies nativas da floresta amazônica, que podem ser cultivadas e conviver sem problemas.

Como as safras de seringueira e do cacau são em épocas diferentes, Adonias explica que a produtividade e a rentabilidade para os produtores são alternadas durante o ano. Outra vantagem é a mão de obra, que também pode ser aproveitada para a sangria das seringueiras e na colheita do cacau. "Não há uma competitividade em termos de mão de obra", destaca.

Além disso, os preços das duas produções são estabelecidos por commodity. "Isso tem uma vantagem na hora de comercializar o produto. Por outro lado, há um preço estabelecido que acompanha o mercado internacional, não formado pelo produtor", disse.

O Brasil é o quinto país produtor mundial de cacau e ainda tem de importar o produto de outros países para o consumo interno. Os estados brasileiros que mais produzem o fruto são Bahia, Pará, Roraima e Espírito Santo. Hoje, os países africanos, como a Costa do Marfim, são responsáveis por 73% do cultivo do cacaueiro.

Potencial do interior

Segundo Adonias, assim como o Noroeste do estado de São Paulo se tornou importante na produção de borracha, a região tem capacidade para ser um polo produtor da matéria-prima do chocolate.

O produtor rural Renato Ramires também acredita no bom momento para o investimento na produção de cacau. Em sua propriedade, em José Bonifácio, plantou 31 mil mudas de seringueiras e espera a colheita do látex para o próximo ano - as árvores ficam prontas para a sangria a partir do sétimo ano de plantio. Enquanto isso, Renato plantou, há dois anos, 2,7 mil mudas de cacau e deve colher a fruta já no ano que vem, pois o cacaueiro produz a partir de três anos de plantio.

"As mudas foram adquiridas no Espírito Santo e, das sete espécies, já pude notar que duas se desenvolvem melhor", disse o produtor. O cacau, conforme Renato, produz melhor em qualidade do fruto com a sombra, por isso é importante o consórcio, com o sombreamento feito pela seringueira, que atinge cerca de 2,5 metros de altura.

Produtores otimistas

Para mostrar aos produtores rurais a experiência de plantio de seringueiras e de cacaueiros, o Escritório de Desenvolvimento Rural de Rio Preto (EDR), em parceria com a Associação Comercial e Industrial (Acirp), promoveu um encontro para discutir o assunto e levar interessados a duas propriedades rurais da região. O evento também contou com a participação do técnico da Ceplac, que veio de Ilhéus para apresentar informações sobre a produção de cacau.

"Nos últimos anos, percebemos um desinteresse do produtor de seringueira pela cultura e isso nos motivou a pensar em alternativas para o setor", disse o engenheiro agrônomo Fioravante Stucchi Neto, do EDR de Rio Preto, que atua na Casa de Agricultura de José Bonifácio.

O trabalho tem como principal objetivo a revitalização da cadeia produtiva da heveicultura, sendo a alternativa encontrada pelos técnicos a produção de seringueira consorciada com outras culturas, na busca de um acréscimo de renda na mesma área produtiva. Nesse sistema, o cacau tem se mostrado uma alternativa vantajosa por seu alto potencial produtivo e de remuneração.

As seringueiras ocupam 132 mil hectares em todo o estado de São Paulo, sendo que 56% das plantações se concentram no Noroeste paulista. Já as plantações de cacau contam com 50 mil árvores em produção em Tabapuã e outras 200 mil mudas no Vale do Ribeira.

A expectativa dos técnicos é uma produção estimada de 1 mil quilos de amêndoa de cacau por hectare e de 3,5 mil quilos de coágulo de borracha por hectare, com o incentivo ao consórcio entre as duas culturas. "O potencial da região de Rio Preto é grande e nós temos produtores rurais que são empreendedores", afirmou Neto.

No projeto, os técnicos dão toda a assistência para os produtores que estão interessados no plantio do fruto. "É importante que o produtor faça o uso de irrigação e também saiba que não há maiores problemas com doenças ou pragas, principalmente por ser um clima mais seco o da região de Rio Preto", analisou o engenheiro agrônomo.

Emerson Mulinari tem uma área rural de dez alqueires em Potirendaba e participou do encontro promovido pelo EDR de Rio Preto. Ele se mostrou animado com a oportunidade de trazer o cacau para sua propriedade. "É algo novo, mas vou investir no negócio e acredito que vai valer a pena", afirma.

O produtor ainda não plantou as mudas, o que deve ocorrer no mês de setembro. Primeiro, ele fez o plantio de 160 mudas de banana para fazer o consórcio com o cacau, proporcionando o sombreamento para o cacaueiro.

Chocolate é produzido na região Norte

produção de até 80% de cacau na fábrica em Rio Preto (Divulgação)
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produção de até 80% de cacau na fábrica em Rio Preto (Divulgação)

Rio Preto conta com uma fábrica de chocolate cujo foco é o bean-to-bar, que significa "do grão (da amêndoa) à barra", ou seja, uma produção em que um único fabricante participa de todas as etapas da criação do chocolate, do cacau até o produto final.

César Ferreira, um dos proprietários da Fruto Cacau, explica que a fábrica instalada na região Norte de Rio Preto é pequena, produzindo aproximadamente 100 quilos de chocolate por mês.

Todo o processo é artesanal. César compra as amêndoas no Espírito Santo - em média 60 quilos por mês - e fabrica chocolate com 60% a 80% de cacau, sem nenhum produto químico. Para ter uma ideia de quão puro é o produto da fábrica rio-pretense, os chocolates produzidos no Brasil têm, normalmente, 25% de cacau.

A produção teve início há um ano e o proprietário disse que a aceitação foi muito boa, sendo que a intenção é dobrar a fabricação até o final de 2019. "Nós percebemos que hoje as pessoas buscam uma alimentação mais saudável e nosso chocolate possui um valor nutricional grande", afirma.

O doce também é procurado por pessoas veganas, que não se alimentam de nenhum tipo de proteína animal, pois os chocolates produzidos na fábrica são livres de leite. "Basicamente, usamos o açúcar de côco, o açúcar cristal orgânico e o xylitol, um adoçante natural a base de fibras de vegetais", explicou.