Moradores e policiais militares se unem para proteger bairros de Rio Preto
Programa Vizinhança Solidária cresceu de três para 29 núcleos na região de Rio Preto. Benefício da iniciativa é a redução da criminalidade; saiba como funciona

Implantado pela Polícia Militar em Rio Preto em 2017 e instituído por lei pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em 2018, o programa Vizinhança Solidária, que tem o objetivo de fazer a vigilância comunitária de residências e denunciar à Polícia Militar (PM) suspeitas de crimes, cresceu de três para 29 núcleos na região Rio Preto nos últimos quatros anos.
Atualmente instalado em dez cidades, a meta do comando da corporação é chegar a mais 86 municípios em 2022. Em Rio Preto, o programa está presente em 16 bairros.
A iniciativa, que prevê a união de moradores de um bairro em grupos de WhatsApp, tem resultado na redução de 60% em média dos casos de furtos e roubos nos bairros em que foram criadas as vizinhanças solidárias. Existente em 267 cidades paulistas, o programa surgiu quando moradores resolveram se unir para combater a onda de arrombamentos de residências.
Ao desconfiar da presença de um carro ou pessoa no bairro, imediatamente o participante do programa coloca a informação no grupo de WhatsApp, que também conta com a presença de policiais militares. Na sequência, uma viatura é enviada até o local para checar a suspeita.
Moradora do bairro Santa Cruz, a jornalista Margarethe Abussamra, que já tinha participado de programa em São Paulo, ficou feliz em saber que o programa também funcionava em Rio Preto. "Em nosso grupo tem moradores, comerciantes, síndicos de prédios. Todos atentos a qualquer coisa estranha no bairro. Se alguém vê uma coisa suspeita já avisa no WhatsApp. Os policiais que estão lá dentro, rapidamente verificam."
O químico João Carloni Filho, 54 anos, um dos coordenadores do grupo do bairro São Marcos, com 180 moradores, conta que os casos de arrombamento de residências e assaltos em pontos de ônibus caíram em 80%. "O que percebemos foi que aumentou a sensação de segurança no bairro. Quando o pessoal percebe que tem um carro ou uma pessoa rondando a vizinhança, já posta no grupo. A PM vai lá e aborda para ver se tem algo errado. Quem não tem boa intenção, já evita nosso bairro".
Para evitar a entrada de criminosos nos grupos de WhatsApp, a inclusão de novos participantes só acontece após a checagem se a pessoa é, de fato, morador ou comerciante no bairro. Pessoas com antecedentes criminais são barradas.
Além de avisar sobre crimes, os grupos ajudam a alertar sobre portas e portões que são esquecidos abertos, suspeita de focos de incêndio, quando se comunica o Corpo de Bombeiros.
Meta é expandir grupos para a área rural

Comandante do CPI-5, o coronel Fábio Cândido, pioneiro na implantação do programa em Rio Preto, começou desde 2019 a incentivar a instalação de novos núcleos em cidades da região. “As principais vantagens dizem respeito às ações que buscam, por meio da prevenção primária, melhorar a segurança pública local, incentivando a vizinhança a adotar medidas capazes de prevenir delitos e colaborar com o policiamento”, afirma o comandante.
Cândido afirma que depois de implantar os núcleos em todas as cidades da região, a ideia é ampliar a experiência para a zona rural, para criar a vizinhança solidária entre produtores rurais, alvos de ladrões de gado, de defensivos e de máquinas agrícolas. “Fazer a ampliação até que o programa esteja presente em todos os 96 municípios da região do CPI-5. E também a expansão do programa para as áreas rurais.”
Para este trabalho a PM já está fazendo visitas a agricultores das 96 cidades da região para convidá-los a participar do versão rural da Vizinhança Solidária. Além disso está sendo feito o mapeamento de todas as fazendas e sítios com ajuda do GPS, para que essas informações seja usadas no futuro para facilitar o envio de viaturas durante uma ocorrência policial.
Comandante do 17º Batalhão da Polícia Militar, o coronel Paulo Sérgio Martins até mantém uma equipe especial de policiais para orientar os moradores interessados em montar um grupo de Vizinhança Solidária.
“O primeiro passo é procurar uma das bases da PM instaladas na cidade ou mesmo na sede do Batalhão. Para a gente funciona muito bem porque virou uma forma de policiamento comunitário e cria mais integração entre os moradores. Um ajuda o outro. Um bairro unido vence o crime”, comenta o oficial.
Tendência
A união de moradores e policiais para aumentar a vigilância de bairros é uma tendência mundial, diz José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
"É uma iniciativa bastante avançada que foi bem-sucedida na Inglaterra e no México. É uma forma de estreitar os laços da comunidade com a polícia, ajudando a melhorar a convivência entre os vizinhos, que passam a cuidar um do outro. O pessoal já vê uma movimentação estranha na frente da casa do vizinho que está ausente viajando e já checa com ele se é algum conhecido, se não é, já liga para polícia ”.
José Vicente espera que a expansão do programa Vizinhança Solidária seja ampliada para outros estados porque é uma opção de usar de forma mais racional o efetivo policial, sem a necessidade de aumentar os gastos com infraestrutura e onerar a máquina pública. "A comunidade se descobre com o poder de articular ações de segurança pública e as polícias passam a ter mais contato com as demandas dos moradores, o que resulta em aprimoramento no serviço prestado”, diz o ex-secretário.
Saiba mais
Entenda
Programa - Conjunto de ações que busca, por meio da prevenção primária, melhorar a segurança pública local, incentivando a vizinhança a adotar medidas capazes de prevenir delitos e colaborar com o policiamento
Importância - A prevenção primária é o primeiro degrau no combate à criminalidade. O cidadão conhece e sente diariamente as causas e os efeitos do crime, cuja percepção se torna ferramenta indispensável para orientar as ações de polícia
Na prática - O programa é voluntário e pode ser implantado em ruas de um determinado bairro ou região, ou com identificação de um estabelecimento comercial que tenha obtido o Certificado de Análise de Risco de Vulnerabilidade. Devem ser evitadas ações ou iniciativas isoladas
Custo - A vistoria na rua realizada pela Polícia Militar não tem qualquer custo para os proprietários, que arcarão apenas com os eventuais investimentos para melhorar a vulnerabilidade do próprio imóvel ou estabelecimento. A comunidade também poderá apoiar na confecção das placas de segurança do bairro, por meio de patrocínio não oneroso
Participação - Para reduzir a in tolerância social que predomina nas grandes cidades, aproximando os vizinhos um dos outros e, por consequência, resgatar a sensação de segurança
Passo a passo para implantar o programa
- Procure os vizinhos explicando a intenção de formação do grupo
- Faça uma reunião com os interessados em participar
- Procure a companhia da PM mais próxima
- Um representante da PM participa de uma reunião com a formação da Vizinhança Solidária
- É criado um grupo no Whatsapp
- A inclusão só é feita após checar quem é o participante
- São colocadas placas de Vizinhança Solidária nas casas e nos comércios do bairro
- Deve ser realizada uma reunião periodicamente para discutir o programa e acatar sugestões de aprimoramento