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ANIVERSÁRIO

Roteiro de fé e de doces, Engenheiro Schmitt remonta à Rio Preto de cem anos atrás

A história de Engenheiro Schmitt se confunde com a de Rio Preto

por Rone Carvalho
Publicado em 18/03/2023 às 19:08Atualizado em 19/03/2023 às 07:39
Paróquia Santa Apolônia, no distrito de Engenheiro Schmitt, é visitada até por turistas do exterior (Guilherme Baff)
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Paróquia Santa Apolônia, no distrito de Engenheiro Schmitt, é visitada até por turistas do exterior (Guilherme Baff)
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Cumprimentar as pessoas na rua é uma característica marcante de Engenheiro Schmitt. Não é à toa que Quitéria Vicente da Silva, 93 anos, nem pensa em sair do distrito. “Mudar daqui só se for para debaixo do chão. Igual a Schmitt não existe. Todo mundo se conhece.”

Conhecido pelos doces que leva o nome do distrito para o mundo, Engenheiro Schmitt é um dos bairros mais populares de Rio Preto. Sua vizinhança, formada por propriedades rurais e a localização distante do Centro faz o distrito remontar à Rio Preto de cem anos atrás, quando nem prédio existia no maior município do Noroeste Paulista.

Há 70 anos, Schmitt tinha somente três quarteirões. Para você ter uma ideia, tinha gente que praticamente ‘dava’ os lotes daqui, pois não tinha asfalto. Essa realidade só foi mudar quando asfaltaram as ruas, na década de 1970”, conta Antônio Moioli, 75 anos.

A história de Engenheiro Schmitt se confunde com a de Rio Preto. Isso porque foi a partir da chegada do trem e da construção da estação ferroviária que o distrito ganhou os primeiros moradores. Não é em vão que o local leva o nome do engenheiro Karl Everhard Jacob Schmitt (1854-1913), responsável pelo traçado de implantação da Estrada de Ferro Araraquarense, entre Taquaritinga e Rio Preto, no início do século 20.

Registros históricos apontam que o distrito passou a receber os primeiros moradores em 1913. Contudo, a fundação oficial somente aconteceu 14 anos depois, por meio de um decreto estadual assinado por Júlio Prestes, em 28 de novembro de 1927, que estabeleceu o “Distrito de Paz de Engenheiro Schmitt com sede no município e comarca de São José do Rio Preto”.

O aposentado Antônio Moioli conta que a hospitalidade da vizinhança e a tranquilidade tornam o bairro diferente dos demais. "Essa convivência e união da turma do bairro é uma bênção. A gente brinca que quem bebeu água de Schmitt não fica fora de Schmitt.”

Além do tradicional doce, que é exportado até para o outro lado do mundo, o distrito é conhecido por ter sido morada do padre Mariano de la Mata Aparicio – beato brasileiro que pode se tornar o primeiro santo da região de Rio Preto.

No período, em que esteve em Engenheiro Schmitt, padre Mariano celebrou missas na igreja do bairro, que tem como padroeira Santa Apolônia. Atualmente, sempre na primeira semana de novembro é realizada a tradicional Caminhada do Padre Mariano, que vai do distrito de Engenheiro Schimitt até Cedral.

Beatificado pelo Vaticano, em 2006, padre Mariano viveu onze anos no distrito de Engenheiro Schmitt, como professor e diretor do Colégio São José, entre 1949 e 1960. Nasceu na Espanha, em 1905, e morreu de câncer, em 1983, na capital paulista.

Schmitt quase virou município

Na segunda metade do século 20, quando inúmeros municípios brasileiros surgiram, o distrito de Engenheiro Schmitt também quase se tornou independente.

Registros mostram que o único plebiscito a respeito da emancipação do distrito de Rio Preto ocorreu em 1963. Contudo, Engenheiro Schmitt permaneceu rio-pretense por apenas dois votos de diferença.

Se houvesse emancipação, Engenheiro Schmitt “roubaria” de Rio Preto, os bairros Vila Toninho, Jockey Clube, Morada Campestre, Parque das Amoras e Residencial Ana Cláudia.

Mesmo não tendo sido emancipada, não é difícil encontrar moradores do distrito dizendo que vão para Rio Preto, em alusão ao distrito não pertencer ao município. “Aqui não tem de tudo, mas tem quase tudo. No passado, a gente tinha banco, hoje não tem. Mas você encontra um mercado, padaria. É quase uma cidade”, falou Antônio Moioli.

Com 467 residências e 223 empresas (incluindo Microempreendedores Individuais – MEI), o bairro que chegou a parar no tempo, no passado, vive um constante crescimento em função dos novos bairros que estão sendo abertos ao redor do distrito.

Elena Dionisio da Silva, 67 anos, é uma das novas moradoras de Engenheiro Schmitt. Para cuidar da mãe (dona Quitéria), ela deixou a capital do estado e mudou-se para Rio Preto. "Gosto muito da tranquilidade de Schmitt. Você dorme sossegada, sem barulho de nada”, destacou.

Quem também se mudou para o bairro foi Jozinete Dionisio da Silva, 72 anos. “Uma coisa que você vê aqui são as pessoas se cumprimentando nas ruas. É uma marca de Schmitt.”