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CRÔNICAS DO MARIVAL

Supervalorizado no mercado, café Mundo Novo surgiu na região de Rio Preto

O café faz parte da história urupeense desde sua emancipação política, em 1928

por Marival Correa
Publicado em 30/10/2021 às 14:00Atualizado em 31/10/2021 às 05:03
Terreiro de secagem de grãos da fazenda Santa Célia, entre Rio Preto e Bady Bassitt: exemplo de grandes propriedades da região que faziam o ‘ouro verde’, o café, movimentar a economia (Jhonny Torres 27/5/2021)
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Terreiro de secagem de grãos da fazenda Santa Célia, entre Rio Preto e Bady Bassitt: exemplo de grandes propriedades da região que faziam o ‘ouro verde’, o café, movimentar a economia (Jhonny Torres 27/5/2021)
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Ao chegar à semifinal e ficar entre os 15 melhores baristas do mundo, em campeonato realizado em Milão no último dia 23, o paulistano Boram Um, de 31 anos, conectou presente e passado. Isso porque a rede de cafeterias da capital paulista que ele comanda junto com a família, de origem sul-coreana, tem entre os principais cafés goumerts que fazem o sucesso do empreendimento a variedade Mundo Novo, desenvolvida na região de Rio Preto, mais precisamente em Urupês, em meados da década de 1940.

Café, seja em solo rio-pretense como em todas as terras desta região foi a base econômica que proporcionou riquezas, fez florescer cidades. Foi por décadas o ouro verde que brilhava no campo e refletia no centros urbanos. Grandes fazendas, como a Santa Célia, entre Rio Preto e Bady Bassitt, que o Diário já mostrou aqui neste espaço, de onde os grãos saíam pra girar a economia. E faziam a fama de lugares como Urupês, na época em que ainda chamava-se Mundo Novo.

Pé de café Mundo Novo em flor na fazenda da família de Boram (Arquivo Pessoal/Família Um)
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Pé de café Mundo Novo em flor na fazenda da família de Boram (Arquivo Pessoal/Família Um)

O café faz parte da história urupeense desde sua emancipação política, em 1928. Neste ano, sementes de Mineiros do Tietê foram trazidas para o município e, em 1943, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) iniciou pesquisas, após ser informado da existência de cafezais excepcionalmente desenvolvidos, bem ramificados e produtivos, na fazenda Aparecida, de Luís Crivellaro, e no sítio Bacuri, de Pedro Mázaro. Esse café foi denominado de “Mundo Novo” e introduzido em várias regiões paulistas e no Paraná. Nesta época, essa nova qualidade foi melhorada pelo IAC. Um sucesso absoluto: cerca de 80% das plantas existentes no País eram originárias de Urupês.

Resultante do cruzamento natural entre os cultivares de Sumatra e Borbon Vermelho, a variedade causou algumas confusões sobre a sua base de origem, mas para não restar dúvida, a Comissão do Café do Instituto Agronômico bateu o martelo, e assim surgiu o Mundo Novo. Pelo fato de permitir colheitas de maiores quantidades de fruto maduro, matéria-prima básica para um produto de alta qualidade e apresentar menor oscilação anual de produção, a Mundo Novo passou a ser extremamente valorizada e atravessou o tempo.

Mundo Novo – a cidade – virou Urupês, a cafeicultura entrou em declínio por toda a região e foi gradativamente substituída por outras culturas. Primeiro a laranja e, por último, a cana, predominante na paisagem regional atual. Lugares que souberam preservar o ouro verde hoje colhem os frutos, graças em boa parte às exportações e graças também às redes de cafeterias que buscam matéria-prima para a bebida em versões ‘gourmetizadas’.

Os cafeicultores que iniciaram a produção da variedade Mundo Novo, em Urupês (Divulgação/Prefeitura de Urupês)
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Os cafeicultores que iniciaram a produção da variedade Mundo Novo, em Urupês (Divulgação/Prefeitura de Urupês)

Cafeterias como a de Boram, o barista certificado mundialmente, é um destes exemplos. Junto com o irmão Garam e o pai Stefano, coordena a Um Coffee Co. E estrategicamente a família apaixonada por café decidiu ter a sua própria produção, a exemplo dos viticultores que primam pela qualidade do vinho. Na fazenda que leva o sobrenome da família, em Campana-MG, na região da Mantiqueira, lá está a Mundo Novo. Se por aqui hoje ela é artigo raro, lá ela é estrela. Na propriedade são cultivadas cerca de 300 mil plantas, divididas em talhões que estão entre os 1.000 e 1.500 metros de altitude, separados em nove variedades, das quais a Mundo Novo e a Bourbon Amarelo são as principais.

Negócio muito sério. A ponto dos irmãos Garam e Boram deixarem a carreira financeira nos EUA e se dedicarem ao café. Para identificar características únicas de cada variedade produzida na fazenda, montaram um laboratório de torrefação, desenvolvendo receitas únicas para cada grão, e, em 2016, inauguraram a primeira unidade da Um Coffee Co., no bairro do Bom Retiro. Hoje são várias lojas na capital e até um espaço para cursos, a Coffee Co. Academy, dedicado a workshops e certificação de profissionais da área. Um mundo novo de oportunidades, graças em boa parte à Mundo Novo.

Café, Boiadeira e muita terra boa

Anúncio de chácaras à venda no Jockey Clube: ‘terra boa, com café em formação’ (Arquivo Pessoal/Família Um)
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Anúncio de chácaras à venda no Jockey Clube: ‘terra boa, com café em formação’ (Arquivo Pessoal/Família Um)

As terras de Rio Preto também já foram recobertas em parte pelos cafezais. Consta que a abertura da Estrada Boiadeira, em 1915, fez a produção agrícola rio-pretense dar um salto, impulsionada pelas produções de café – plantado por aqui desde 1890 – e de algodão, além da pecuária. E por décadas prosseguiu assim, com Rio Preto ganhando feições mais urbanas, mas com um pé ainda na roça (e nos cafezais!).

Conforme o Almanaque Paulista, em 1945 Rio Preto contabilizava quase meio milhão de sacas de café em coco, quatro vezes mais que o total de arroz, por exemplo. Destaque à parte para o anúncio da década de 1960 para vendas de “magníficas chácaras na Vila Jockey Clube”. Naquela época, a Washington Luís era a estrada Rio Preto-São Paulo, e o grande chamariz eram ‘propriedades com café já formado em terra boa’. Terra boa pra café e pra história, esta nem sempre bem cultivada.