Diário da Região
ARTIGO

Janeiro Branco não muda cultura

A neurociência é clara: o cérebro humano não foi feito para viver em estado de ameaça constante

por Bruna Bârbosa
Publicado em 20/01/2026 às 03:36
Após encerrar o ciclo do Aldeia Materna, Bruna Bârbosa inicia o projeto Tempo de Ser para debater bem-estar, saúde física e mental (Arquivo Pessoal)
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Após encerrar o ciclo do Aldeia Materna, Bruna Bârbosa inicia o projeto Tempo de Ser para debater bem-estar, saúde física e mental (Arquivo Pessoal)
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Todo janeiro, o mundo corporativo se pinta de branco.Campanhas, posts, palestras, frases sobre saúde mental. A intenção é boa. O problema é quando o discurso não encontra a prática.

A neurociência é clara: o cérebro humano não foi feito para viver em estado de ameaça constante. Metas inalcançáveis, medo de errar, pressão contínua, lideranças imprevisíveis e ambientes inseguros mantêm o sistema nervoso em alerta. O resultado é exaustão, queda de foco, irritabilidade, adoecimento.

Burnout não nasce da falta de força. Nasce de ambientes biologicamente incompatíveis com o funcionamento saudável do cérebro.

Oferecer terapia, ginástica laboral ou uma palestra é importante. Mas isso não compensa estruturas que continuam exigindo mais do que as pessoas conseguem sustentar. Quando o modelo de trabalho adoece, o indivíduo vira o amortecedor do sistema.

Outro erro comum é confundir saúde mental com felicidade forçada. Ambientes saudáveis não são os que exigem sorriso constante, mas os que permitem dúvida, cansaço, discordância e vulnerabilidade. Onde não existe segurança psicológica, as pessoas aprendem a fingir que estão bem. E o burnout cresce em silêncio.

A atualização da NR-01 deixou isso explícito: riscos psicossociais agora são riscos de trabalho. Assédio, sobrecarga, pressão excessiva e ambientes hostis passaram a ser responsabilidade formal das empresas. Não é moda. É sinal de alerta.

Janeiro Branco tem valor. Ele abre a conversa. Mas cultura não se transforma com campanhas. Se transforma com decisões cotidianas: como metas são definidas, como líderes se comunicam, como erros são tratados, como o ritmo é sustentado.

Empresas que levam saúde mental a sério não apenas oferecem ações, mas redesenham a forma de trabalhar. Investem em lideranças emocionalmente preparadas, em ambientes de confiança, em clareza de expectativas e em ritmos mais humanos, porque sabem que isso impacta diretamente engajamento, inovação e resultados.

Cuidar da saúde mental no trabalho não é falar mais bonito. É trabalhar diferente. É criar ambientes onde o cérebro humano possa pensar, colaborar, errar, aprender e pertencer sem viver em estado de defesa.

A pergunta real para 2026 não é “qual ação vamos fazer em janeiro?”.

É: que tipo de ambiente estamos construindo de fevereiro a dezembro?

Bruna Barbosa
Jornalista, especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness. Trabalha com empresas que querem ir além de campanhas e construir culturas emocionalmente sustentáveis, onde pessoas conseguem performar, colaborar e permanecer saudáveis ao mesmo tempo. Instagram: @eu.brunabarbosa