Contra a dengue, descarte os mitos e as receitas milagrosas
Mesmo após décadas em que o mosquito aterrissou por aqui, a dengue é cercada por mitos que colocam em risco a saúde dos pacientes

Mesmo depois de décadas de convivência indesejável com o mosquito Aedes aegypti, o combate à dengue ainda se esconde atrás de ideias equivocadas que atravessam gerações. O mosquito é velho conhecido, mas o entendimento sobre a doença nem sempre acompanha o tempo. Entre receitas caseiras, diagnósticos tardios e falsas certezas, o vírus encontra espaço para avançar silenciosamente, agravando quadros que poderiam ser evitados com informação correta e atenção aos sinais do corpo.
Em um cenário onde o perigo parece banalizado, os mitos se tornam tão nocivos quanto a picada do Aedes aegypti. Acreditar em mitos pode custar caro. Desvendar essas falsas verdades é mais do que um exercício de esclarecimento: é uma urgência de saúde pública que começa pelo conhecimento e termina na prevenção.
Chá de alho, chá de folha de mamão, suco verde, vitamina C em megadoses, antibióticos e inti-inflamatórios. Essas são algumas das receitas que circulam nas redes sociais e de boca em boca.
Na realidade, a principal solução para interromper a transmissão e, consequentemente, casos graves e óbitos, é eliminar qualquer lugar onde o mosquito possa colocar seus ovos. Rio Preto já acumula, neste ano, 401 pacientes infectados, de acordo com dados da Secretaria de Saúde.
Uma vez que o Aedes aegypti faça sua vítima, no entanto, é importante saber que não existe receita milagrosa nem remédios especificamente contra o vírus - apenas para controlar os sintomas.
“A principal medida é a hidratação adequada, com aumento do consumo de água, chás, água de coco e soro caseiro. Também é recomendado repouso e a busca imediata por atendimento médico diante de qualquer sinal de agravamento”, afirma Luíza Yamanaka Marin, médica de Família e Comunidade na Atenção Integral à Saúde da Unimed Rio Preto.
PRINCIPAIS MITOS SOBRE O MOSQUITO
O MOSQUITO SÓ PICA DURANTE O DIA
Embora o inseto prefira a luz do dia, tudo depende da rotina da casa. Se os moradores ficarem muito tempo fora de casa e só voltam à noite, ele vai sair do esconderijo para procurar alimento. Além disso, as luzes artificiais também ajudam a aumentar seu tempo de atuação.
O AEDES SÓ GOSTA DE ÁGUA SUJA
O mosquito prefere água parada e limpa, mas não se faz de rogado quando o assunto é sua sobrevivência. Seus locais favoritos são bebedouros, garrafas, caixas d’água, dentre outros recipientes, porém pode colocar seus ovos também em água com matéria orgânica, ralos e bueiros, caixas de gordura e até em poças formadas em entulhos e lixos.
EM APARTAMENTO NÃO TEM CRIADOURO
MITO! O mosquito é muito pequeno, então ele entra como passageiro em um elevador sem nem ser percebido, além de voar escada acima sem dificuldade.
PRINCIPAIS MITOS SOBRE A DENGUE
SÓ SE PEGA DENGUE UMA VEZ
MITO! Existem quatro sorotipos de dengue. Quem pega um pode pegar o outro pouco tempo depois. Acreditar que o vírus só pode causar problemas uma vez pode fazer a pessoa baixar a guarda e abrir as portas da casa para o Aedes aegypti.
DENGUE SE TRANSMITE DE PESSOA PARA PESSOA
MITO! O vírus é única e exclusivamente transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.
ANTI-INFLAMATÓRIO AJUDA A MELHORAR MAIS RÁPIDO
MITO muito perigoso! O anti-inflamatório é contraindicado quando há dengue, mesmo a suspeita. Por causa das alterações na permeabilidade vascular e no sistema de coagulação do organismo, esse tipo de medicamento aumenta o risco de hemorragia.
SE NÃO ESTÁ SANGRANDO, NÃO É DENGUE GRAVE
MITO! Em muitos casos, a dengue grave vai, sim, causar sangramentos, por isso por muito tempo difundiu-se o termo “dengue hemorrágica”. Por causa dele, muita gente só procurava ajuda se apresentasse hemorragia.
A verdade, no entanto, é que a forma severa da doença pode ocorrer apenas internamente, com a diminuição da quantidade de plaquetas e da pressão arterial, levando à incapacidade do organismo de levar sangue de forma adequada para os órgãos.
VITAMINAS, CHÁS OU REMÉDIOS CURAM DENGUE
MITO! Não existe tratamento específico para tratar a dengue ainda. Acreditar em receitas milagrosas, muitas delas divulgadas na internet, pode ser muito perigoso. Há alguns anos, por exemplo, um morador de Rio Preto morreu após ingerir crua um tubérculo que precisa ser cozido - caso contrário, torna-se venenoso - na tentativa de tratar a dengue.
Contra a doença o tratamento é hidratação (água, chás, sucos, soros), repouso e medicamentos para aliviar os sintomas, como antitérmicos e analgésicos.
SE A FEBRE BAIXOU, O PERIGO PASSOU
MITO! A evolução da febre é uma preocupação para os médicos, porém mesmo após a temperatura baixar, o paciente pode piorar em alguns dias, ter piora clínica e voltar a ter febre.
TUDO BEM RETOMAR AS ATIVIDADES NORMAIS 100% LOGO DE CARA
MITO! Tudo depende da evolução do paciente. Nos primeiros dias após a infecção, ele precisa ser acompanhado e orientado em relação aos sinais de piora. Somente com o aval do profissional é possível retornar à rotina normal, muitas vezes de forma gradativa.
TOMAR ANTIBIÓTICO AJUDA
MITO! Sem indicação médica, os antibióticos podem levar ao aumento da resistência de bactérias, o que é um perigo tanto individual quanto coletivamente. Além disso, é completamente ineficaz contra a dengue, uma vez que a infecção da dengue é causada por um vírus, não por uma bactéria.
Fonte: Giovana Pena Ferraz, infectologista, e reportagem