Diário da Região

Delegado em Votuporanga é investigado por prevaricação

Ministério Público alega que delegado se limitou a relatar precipitadamente um inquérito policial sem se atentar para a filmagem de um crime que deveria ser mais bem apurado e desvendado

por Joseane Teixeira
Publicado em 08/01/2026 às 03:07Atualizado em 08/01/2026 às 13:24
Peça de concreto utilizada pelo agressor: segundo filha da vítima, o delegado disse que já tinha encerrado investigação e jogaria pedra fora (Reprodução)
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Peça de concreto utilizada pelo agressor: segundo filha da vítima, o delegado disse que já tinha encerrado investigação e jogaria pedra fora (Reprodução)
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A Corregedoria da Polícia Civil instaurou inquérito para investigar suspeita de prevaricação do delegado Marco Aurélio Tirapelli, de Votuporanga, na condução de uma investigação sobre as circunstâncias de um homicídio que vitimou um idoso de 70 anos em agosto de 2025.

A reportagem apurou que a portaria de instauração do procedimento foi publicada no dia 29 de dezembro, a pedido do promotor José Vieira da Costa Neto, que ficou descontente com o inquérito encaminhado ao Ministério Público.

Em vez de devolver o relatório com pedido de novas diligências, como é praxe, o promotor solicitou a troca de delegado e, com a sentença de pronúncia que determinou o julgamento do réu pelo Tribunal do Júri, oficiou a Delegacia Geral de Polícia e Delegacia Seccional de Votuporanga para que fosse instaurada a investigação, não só a nível administrativo, mas criminal, contra o delegado Marco Aurélio Tirapelli, pela que classificou como “falta administrativa gravíssima”.

O CASO

Refere-se o caso à morte do aposentado Milton de Oliveira Bolleis, agredido por Fernando Rodrigo Guerche, 46, durante uma briga de bar. Imagens de câmeras de monitoramento mostram que Fernando dá uma voadora no idoso e, em seguida, joga uma pedra de concreto no peito da vítima, que sofreu múltiplas fraturas de arcos costais e hemorragia interna.

Fernando foi preso em flagrante e, nestas circunstâncias, o Código de Processo Penal estabelece que o inquérito deve ser concluído em 10 dias, podendo ser prorrogado em alguns casos, mediante justificativa fundamentada.

De acordo com o Ministério Público, o delegado Tirapelli, do 1º Distrito Policial, se limitou a “relatar precipitadamente o inquérito policial, sem se atentar para a filmagem do crime, cujos detalhes, nítidos nas imagens, deveriam ser mais bem apurados e desvendados. Sem contar as inverdades narradas por elementos que estavam no bar”.

Outro ponto destacado pelo promotor é a suposta negativa do delegado em apreender a peça de concreto utilizada pelo agressor e apresentada pela filha da vítima na delegacia. Segundo a jovem, o delegado teria dito que já tinha encerrado a investigação e que jogaria a pedra fora. A informação consta na sentença de pronúncia, assinada pelo juiz Vinicius Castrequini Bufulin, que entendeu a recusa do delegado como “ilícita”, embora não tenha alterado a situação do processo.

O caso foi assumido pelo delegado Tiago Madlum, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Votuporanga. O resultado foi que, além de a Justiça levar Guerche a Júri Popular, ainda determinou a instauração de inquérito contra duas pessoas por falso testemunho e contra o dono do bar por fraude processual.

O promotor Costa Neto escreveu no ofício que “...se trata de fatos gravíssimos, passíveis, ao meu ver, de afastamento imediato de quem os realizou”.

OUTRO LADO

Procurado, o delegado seccional Marcos Alberto Negrelli afirmou que aguarda a apuração dos fatos pela Corregedoria para tomar as medidas administrativas necessárias. No entanto, consignou que Tirapelli é um delegado experiente, com mais de 30 anos de serviços prestados à Polícia Civil.

Já o delegado Tirapelli respondeu ao Diário que conduziu o inquérito de forma técnica. “Fui retirado da investigação logo no início. Estão fazendo imputações que eu não admito e vou comprovar que a minha condução foi isenta e foi técnica”.