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‘Vale Tudo’ é um bom retrato do Brasil atual

por Marco Antonio dos Santos
Publicado em 05/08/2025 às 18:23Atualizado em 05/08/2025 às 21:25
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Lançada em março deste ano, a nova versão da novela “Vale Tudo” finalmente mostrou que foi uma ótima sacada reformular o clássico de 1988. Na versão original, o autor Gilberto Braga retratou o Brasil no período pós-ditadura militar e durante a reabertura política. Já Manuela Dias, autora da nova adaptação, acertou ao atualizar a trama para os tempos atuais: incluiu o uso das redes sociais, tornou as protagonistas Raquel e Fátima Acioli mulheres negras — bem interpretadas por Taís Araújo e Bella Campos — e fez uma releitura interessante da vilã Odete Roitman. Antes interpretada por Beatriz Segall, agora ganha nova vida com Deborah Bloch, que entrega frases sarcásticas que fazem todo o sentido no contexto atual. Além disso, ela é uma mulher empoderada, que domina as relações com os homens, mas é racista e machista.

Foi sensacional transformar Fátima numa jovem que busca se tornar influencer a qualquer custo, movida pela sede de fama instantânea nas redes sociais. Em contraste, Afonso, vivido por Humberto Carrão, diz o que muitos pensam: não quero expor minha vida pessoal e virar refém da opinião alheia.

A Globo também acertou na escalação de um elenco mais diverso. Se em 1988 havia apenas dois atores negros, agora há até uma família liderada por Consuelo (Belize Pombal) e Jarbas (Leandro Firmino, fantástico também na série “Impuros”, da Disney+).

Há ainda uma subtrama inédita, protagonizada por Vasco (Thiago Martins), um pai ausente, e Lucimar (Ingrid Gaigher), uma mãe solo batalhadora. A novela chegou a ensinar, inclusive, como mulheres podem entrar com pedido de pensão alimentícia por meio do aplicativo da Defensoria Pública — um exemplo positivo de utilidade pública na ficção.

Claro, nem tudo é perfeito. A nova versão da Heleninha, vivida por Paolla Oliveira, não alcança a força da personagem original interpretada por Renata Sorrah. Não se trata de uma ser melhor que a outra, mas interpretar uma dependente alcoólica com naturalidade e profundidade é tarefa para poucos.

Falta também à “Vale Tudo” de 2025 captar de forma mais direta o clima atual de messianismo político, tanto à esquerda quanto à direita, a polarização da sociedade e o uso da religião como instrumento de poder — temas que pedem espaço.

Sem comparações diretas, a nova “Vale Tudo” é outra obra. O que permanece igual — ou até melhor — é a beleza do Rio de Janeiro, sempre deslumbrante em cena.

MARCO ANTONIO DOS SANTOS

Jornalista