Diário da Região
Quando o luto vira livro

Professor transforma dor da perda do filho em obras literárias

Com mais de 40 traduções médicas e dois livros autorais, escritor encontra na palavra um caminho de fé, memória e reconstrução

por Dandara Caroline*
Publicado em 08/01/2026 às 01:38Atualizado em 08/01/2026 às 11:36
Tradutor e pesquisador radicado em Rio Preto, Alexandre Lins Werneck transforma a perda do filho em obras que unem espiritualidade, ciência e humanida (Divulgação)
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Tradutor e pesquisador radicado em Rio Preto, Alexandre Lins Werneck transforma a perda do filho em obras que unem espiritualidade, ciência e humanida (Divulgação)
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Alexandre Lins Werneck tinha carreira, método e disciplina. No entanto, aquilo que nenhuma formação ensina, chegou sem aviso: atravessar a dor. Nascido em Belo Horizonte e radicado em Rio Preto, o tradutor, professor e pesquisador de 67 anos construiu uma trajetória singular ao unir ciência, literatura e espiritualidade. Autor de mais de 40 livros traduzidos na área médica, ele transformou a perda mais devastadora — a morte de um filho — em palavras que não explicam o sofrimento, mas o acolhem.

O encontro com os livros veio cedo. Nos anos 1980, Alexandre deu os primeiros passos na tradução de obras médicas, campo que definiria sua vida profissional. Em 2005, formou-se em Letras pela Unilago e, dois anos depois, lançou o “Glossário de Termos Médicos”, trabalho que ele define como um marco na carreira. A publicação abriu caminho para o mestrado e o doutorado em Ciências da Saúde pela Famerp, consolidando sua atuação acadêmica.

Na sala de aula, tornou-se referência em metodologia científica, orientando pesquisadores e formando gerações de profissionais da saúde. A aposentadoria, em 2022, não o afastou do ensino. Pelo contrário. “Eu precisava de uma válvula de escape, não do luto, mas da aposentadoria. Que muita gente não sabe lidar”, diz.

A CARTA

Nada, porém, atravessou sua história com a força da morte do filho, em 1992, aos 12 anos. No dia do sepultamento, Alexandre escreveu uma carta e a selou. O envelope permaneceu fechado por 33 anos. “Quando eu perdi meu filho, eu me encontrei como ser humano”, afirma.

Décadas depois, um novo choque mudaria o curso de sua escrita. Após sofrer um grave acidente em Amparo, Alexandre passou 17 dias em coma e despertou já em Rio Preto. Foi ali que fez uma promessa. “Se eu saísse daquele hospital e ficasse bem, publicaria o livro e colocaria a carta do meu filho nele.”

Nascia, assim, “Encontros com a Eternidade, Encontros com o Infinito”, obra que se debruça sobre a morte, a transcendência e o amor que resiste ao tempo. “A morte é silenciosa. No nosso País, isso é um tabu. Eu decidi escrever que a vida não termina com a morte, é só mais um passo”, explica.

O desafio maior não foi teórico, mas humano. “Eu quis escrever o que um pai diria ao filho quando joga a primeira pá de terra no túmulo. Sem chavões, sem palavras difíceis.”

ESPIRITUALIDADE

O luto e a reflexão filosófica seguem presentes também em “Crônicas do Tempo e da Vida – Fragmentos do Cotidiano”, seu segundo livro autoral. Nele, Alexandre mistura memória, observações do presente e práticas de autoconhecimento que fazem parte de sua rotina. “Eu estudo muitas religiões. O rosacrucianismo colocou no meu caminho um movimento de sabedoria e serviço.”

Essa convivência entre tempos e experiências molda sua escrita. “Misturar passado e presente me coloca numa dualidade. O metaverso sempre puxa meu passado, e disso nasceram muitas das reflexões do livro.”

* Estagiária sob a supervisão de Salomão Boaventura

Começar tarde, ir longe

Alexandre iniciou a faculdade aos 42 anos, experiência que faz questão de compartilhar com os alunos. “Eu mostro isso aos meus alunos: se eu consegui começar aos 42, eles também conseguem.”

Além das traduções para editoras como Guanabara Koogan, Arte Média e Revinter, sua produção acadêmica segue ativa. Atualmente, leciona no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e acaba de lançar seu segundo livro técnico, Sistema Circulatório, reafirmando o compromisso com a formação científica.

A virada emocional, porém, aconteceu quando o luto começou a se transformar em força. Ele se recorda de 1992, quando a missa de sétimo dia do filho coincidiu com seu próprio aniversário, em 19 de junho. Amigos insistiram para que comemorasse. “Eu fui. Para mim, são coisas distintas. Uma coisa é guardar meu filho. A outra é entender que a vida não para.”

Ao olhar para trás, Alexandre resume sua trajetória em duas palavras: “Fé e esperança.” E deixa uma mensagem que ecoa além dos livros: “A vida me levou exatamente onde eu precisava estar. E eu ainda tenho muitos projetos vindo por aí.” (DC)