Confronto Secular

O mundo contemporâneo se caracteriza por grandes transformações estruturais na sociedade global, período marcado por grandes incertezas e instabilidades estruturais, além de variados confrontos entre nações, que podem culminar em guerras fratricidas. O século XXI traz em suas entranhas novos confrontos econômicos e geopolíticos globais que tendem a impactar fortemente todas as regiões do mundo, impactando os modelos produtivos, transformando as relações entre capital e trabalho e modificando as relações entre as nações.
Desde a Segunda Guerra Mundial até o início dos anos 1990, o grande confronto econômico, político e geopolítico era entre os Estados Unidos da América (EUA) versus a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), este conflito moldou a sociedade global, gerando inimizades, enfrentamentos militares, conflitos culturais e uma verdadeira máquina de violências, marcadas por inverdades e cancelamentos recíprocos.
Neste período os Estados Unidos construíram uma imensa estrutura econômica e produtiva, baseada em fortes investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia, que impulsionaram os setores produtivos, financiados por fortes subsídios fiscais e financeiros, levando os norte-americanos a controlarem quase toda a sociedade global, exportando seus valores, controlando as questões monetárias, dominando os aspectos ideológicos e exportando para todas as regiões seu complexo industrial-militar, que integravam as forças armadas, a indústria de defesa e os formuladores de políticas públicas.
Os Estados Unidos foram os grandes responsáveis pela consolidação de um mundo centrado em regras, crescimento das trocas entre os países, com instituições internacionais consolidadas, investimentos externos diretos, recursos abundantes em ciência e tecnologia e organização produtiva, além de previsibilidade, credibilidade e uma grande estabilidade que impulsionaram a sociedade global, além de uma moeda estável, o dólar, responsável pela estabilização monetária mundial, com isso, a economia global cresceu, promovendo melhorias nas condições de vida da população.
Atualmente, percebemos novos confrontos geopolíticos em curso na sociedade global, a URSS se desintegrou, a Europa se perde em suas mazelas crescentes e, percebemos uma grande ameaça da manutenção do poderio norte-americano, a ascensão da China, seu desenvolvimento tecnológico e seu potencial exportador, ameaça a dominação global dos Estados Unidos, inaugurando um momento único para a sociedade global, onde os movimentos geopolíticos estão em transformações, disputas econômicas e produtivas ganham relevância e o sucesso anterior pode não ser suficiente para garantir avanços substanciais nos próximos anos.
Vivemos um momento de confronto secular entre Estados Unidos e China, tudo isso impacta sobre as políticas públicas e os acordos estratégicos das nações, moldando a sociedade global nos próximos anos, exigindo maturidade dos governantes para escolherem novos espaços que privilegiam a soberania nacional e a autonomia política, exigindo ainda contrapartidas econômicas sólidas e consistentes para participar ativamente do xadrez global, mostrando nossas inúmeras potencialidades, nossa capacidade de inovação e nosso espírito empreendedor, evitando escolhas equivocadas que caracterizaram a sociedade brasileira, escolhas estas que contribuíram, diretamente, para que construíssemos uma nação marcada pela desigualdade, pela exclusão e pela injustiça.
Estamos num momento estratégico para a sociedade brasileira, externamente. As nações se digladiam para novos espaços de poder do século XXI e, internamente, temos uma elite econômica e grupos políticos que querem manter e perpetuar seus privilégios, além de consolidar o sistema econômico dominante, mesmo sabendo que este modelo beneficia seu grupo, garantindo vantagens e aprofundando imensamente os interesses da maioria da população.
Ary Ramos da Silva Júnior
Bacharel de Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.