O enfraquecimento do Dólar

A moeda é um patrimônio de um país, quanto mais sólida for, maior será a atração de novos negócios, maior será o domínio sobre os outros países. Todo país com moeda forte acaba sendo o porto seguro dos demais países.
Essa era a função do dólar até então, mas que começa a apresentar sinais de fraqueza, de perda de valor, dada as inconsistências da política introduzida pelo presidente americano. A perda da hegemonia do dólar, que por enquanto mantém a superioridade da economia americana, está sendo provocada pela Casa Branca, o que no momento parece ser uma boa estratégia, a médio prazo trará problemas e incertezas para a economia americana com reflexos para o mundo todo.
Daí a necessidade de uma nova reorganização geopolítica. O dólar americano ocupa o centro do sistema financeiro internacional desde 1944, após a Segunda Guerra Mundial, onde ocorreu a Conferência de Bretton Woods.
O que dá valor a uma moeda é o poder político, estabilidade institucional, reservas em ouro, produtividade elevada da economia e domínio geopolítico, características presentes na economia americana, embora comece a apresentar declínio. E quando uma moeda tem essas características, passa a ser o principal meio de troca e reserva entre os países e tem influência decisiva na arena internacional.
O presidente Trump vem reagindo de forma agressiva e desproporcional a possibilidade de substituição do dólar por outras alternativas, como a proposta dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul). Trump demonstra um protecionismo puro, contrariando a história americana, berço do livre mercado, recusando que sua moeda perca participação no mercado financeiro internacional e, com isto, vem fazendo ameaças a todos os países sem qualquer lógica ou parâmetro.
Pesquisas comprovam que desde a década de 90, os EUA vem perdendo participação relativa na produção industrial e no comércio mundial. Em 1990, o país respondia por 21% do Produto Interno Bruto (PIB) em Paridade de poder de compra do mundo; hoje responde por pouco mais de 14%.
A China já é a maior potência industrial e o maior exportador do mundo, assim entendemos o tarifaço e a queda da supremacia do dólar, que ainda é uma moeda forte, mas quando se trata de governos populistas e autoritários, a história se torna soberana.
O que está enfraquecendo o dólar? Trump vem adotando políticas fiscais irresponsáveis, aumentando ainda mais o já elevado déficit público, vem atacando a independência do Federal Reserve (Banco Central Americano), está rompendo consensos internacionais, utilizando as tarifas como instrumento de retaliação pessoal, dessa forma vai enfraquecendo as bases de confiança que sustentam a moeda americana.
Os reflexos dessas medidas já começaram a aparecer, o dólar já caiu 10% desde o início do ano, mesmo com os choques globais — na verdade, em condições normais ocorreria o oposto, ou seja, seria valorizado, já que era o porto seguro. Os EUA estão perdendo a previsibilidade jurídica/ institucional, pouca coisa é tão deletéria para uma moeda e um sistema econômico.
O déficit público aproxima dos 7% do PIB e a dívida pública supera os 35 trilhões. Mas até por falta de alternativas, por enquanto, por algum tempo o dólar vai ser a moeda dominante, pois, o euro passa por entraves fiscais e políticos; o yuan chinês com controles de capital e capacidade institucional.
Ainda segundo as pesquisas, moedas digitais de bancos centrais, como o projeto Brics Pay, continuam em fase experimental. Seja como for, quase 90% das transações cambiais e 60% das reservas cambiais ainda são feitas em dólar. O mundo sem o dólar certamente seria mais fragmentado, incerto, mas o seu trono está em jogo.