Diário da Região
Olhar 360

Memória amputada

Empurrar verdades incômodas para baixo do tapete costuma parecer confortável no presente. Mas, como o Brasil já aprendeu, o custo desse conforto sempre chega

por Beto Braga
Publicado em 11/02/2026 às 01:32Atualizado em 11/02/2026 às 11:21
Beto Braga (Beto Braga)
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Quando Wagner Moura comentou em um programa americano, durante o circuito de divulgação do Oscar, sobre a tentativa de empurrar para debaixo do tapete os arquivos de Jeffrey Epstein, ele tocou num nervo exposto das democracias: o impulso recorrente de confundir “virar a página” com amputar a memória. O paralelo com o Brasil é incômodo porque é preciso.

Ao fim da ditadura militar, optamos por um pacto de silêncio institucionalizado. Não houve justiça de transição real, não houve responsabilização ampla, não houve enfrentamento público dos horrores. O resultado foi previsível: o esquecimento abriu espaço para o saudosismo. Hoje há quem descreva aquele período como se fosse uma era de ordem, prosperidade e moralidade. Não era.

O que existia era censura. Sem imprensa livre, os crimes do Estado não viravam manchete. A corrupção não virava escândalo. A violência política não virava estatística pública. A sensação de “segurança” era, em boa medida, o efeito colateral do silêncio imposto. E a economia, frequentemente romantizada, já durante a própria ditadura caminhava para o colapso.

Entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, ainda sob regime militar, a inflação disparou de forma acelerada. Em 1980 já superava 100% ao ano. Em 1983, último ano completo do ciclo autoritário antes da transição civil, rompeu a casa dos 200% anuais. Não era prosperidade. Era perda contínua do poder de compra, corrosão de salários e instabilidade econômica.

A hiperinflação dos quatro dígitos viria depois, nos governos civis, como herança direta de um modelo econômico esgotado e endividado construído ao longo da ditadura. Mas o mito de que o regime entregou estabilidade não resiste nem aos dados do próprio período militar.

Ignorar o passado não nos protege dele. Apenas o recicla em forma de fantasia política. Por isso é sintomático que, décadas depois, parte da sociedade tenha flertado novamente com soluções autoritárias. E é justamente aqui que o Brasil, desta vez, agiu de maneira mais madura: a tentativa de golpe de Estado gestada dentro de um governo eleito foi investigada, exposta e está sendo punida.

Vieram à tona planos que incluíam o assassinato de adversários políticos e de membros de cortes superiores no exercício de suas funções. Não se varreu para debaixo do tapete. Enfrentou-se. É doloroso? Claro. Mas é assim que democracias sobrevivem.

O mesmo raciocínio vale para os arquivos Epstein. Abuso de crianças e adolescentes não é um desvio individual quando envolve redes de poder político e financeiro. É um sistema de proteção aos agressores. Quando o agressor é rico, famoso ou influente, a tendência histórica é minimizar, relativizar, silenciar. Isso cria uma cultura de normalização do abuso. E essa cultura é ainda mais grave que o crime em si, porque permite sua repetição.

Os arquivos citam brasileiros e, mesmo sem condenação formal, a simples menção já impõe um estigma legítimo, pois se trata de investigações sobre uma rede internacional de exploração sexual conduzida pelo FBI, não de boatos. Soma-se a isso o fato de um dos citados, no cargo

máximo da República, ter dito que ao ver uma adolescente de 14 anos “pintou um clima”, sem sofrer repúdio institucional ou qualquer consequência real.

Isso diz muito mais sobre a tolerância social ao abuso quando ele vem de cima do que sobre qualquer guerra cultural. Enfrentar esses arquivos não é caça às bruxas. É romper com o velho pacto de silêncio que sempre protegeu os poderosos.

A história brasileira já mostrou o preço de fingir que certas coisas não aconteceram. O esquecimento fabricou mitos. Os mitos abriram caminho para novos abusos de poder.

Memória não é vingança. É vacina. Empurrar verdades incômodas para baixo do tapete costuma parecer confortável no presente. Mas, como o Brasil já aprendeu, o custo desse conforto sempre chega. E chega alto.

Beto Braga

É empresário