Painel de Ideias

Estamos emburrecendo

Na verdade, estamos utilizando cada vez menos nossos cérebros e, quando usamos, o fazemos de forma inadequada, acomodada e preguiçosa. Já disseram que os idiotas ganharão o mundo. Às vezes noto isso nas redes sociais

por Cesar Belisario
Publicado em 11/09/2019 às 00:30Atualizado em 09/06/2021 às 01:02
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Em algum momento, a conta ia chegar. Em vários lugares do mundo onde se pesquisa a inteligência, os resultados são coincidentes: a humanidade dá sinais de que o Q.I. (Quociente Intelectual) médio da população está caindo geração após geração. O Q.I. é um parâmetro clássico e certamente um dos mais usados no mundo. A queda foi de 0,86 entre 1950 a 2000 e estima-se que cairá 1,28 entre 2000 e 2050. O fato é que existem várias explicações para o fenômeno e passo a enumerá-las.

Desuso da memória. Darei como exemplo eu mesmo. Antes de comprar o meu primeiro celular eu sabia de cabeça o telefone de todos os meus parentes, amigos, hospitais e um monte de outros telefones que me interessavam. Hoje não sei mais nenhum. Inclusive teve ocasiões em que eu já esqueci o meu ou o telefone lá de casa. Li há algum tempo um estudo que comparou o Q.I. de taxistas britânicos. Constataram que os da "velha guarda", criados consultando guias e mapas em papel eram superiores aos dos novatos que só usavam e seguiam cegamente o GPS. Desacostumamos a decorar os números, ruas e caminhos. Isto impacta de alguma forma no resultado final.

O volume de informações excessivo. Antes, o conhecimento humano dobrava em décadas. Hoje leva semanas. Sabe-se que novas ideias surgem da livre associação de informações. E cada um de nós sabe cada vez menos do todo. Estima-se que o filósofo Aristóteles sabia 90% das informações existentes de sua época. Leonardo Da Vinci, talvez o maior Q.I. de todos os tempos, dominava 60% e Isaac Newton 30%. Nós não sabemos nada, nem uma gota no meio do oceano.

Comodidade tecnológica. Para nos informarmos a respeito de algum assunto, buscávamos na Barsa, no Almanaque Abril ou em algum guia. Hoje em dia, temos a falsa sensação de que sabemos algo. Digitamos no Google e lá vem um milhão de links supostamente ligados ao assunto desejado e que nos deixa perdidos. Frequentemente acabo ligando para algum amigo que entende do assunto para ele me dar alguma explicação sobre o que preciso saber. Quando a informática se popularizou, era obrigatório conhecer os programas para utilizá-los. Agora, os programas são intuitivos e moldados para atender também os que não sabem nada.

Fast food. Hoje em dia as informações são mais superficiais. Nada de textões que ninguém lê. Nada de reflexões mais profundas. Pega-se aquilo que você precisa saber para aquele momento e tchau. Nada de ir um pouco além ou tentar saber "tudo" a respeito de alguma coisa.

Apontei as causas que considero principais. Na verdade, estamos utilizando cada vez menos nossos cérebros e, quando usamos, o fazemos de forma inadequada, acomodada e preguiçosa. Já disseram que os idiotas ganharão o mundo. Às vezes noto isso nas redes sociais. O resultado não podia ser outro. Triste profecia!