Localizada no interior do Rio Grande do Sul, a pequena cidade de Cândido Godói, com pouco mais de 6 mil habitantes, ganhou projeção internacional por um fenômeno incomum: a elevada taxa de nascimentos de gêmeos. O município, frequentemente chamado de “Capital Mundial dos Gêmeos”, apresenta índices muito acima da média nacional e global, despertando curiosidade tanto de cientistas quanto de turistas.
Dados do Censo de 2022 indicam que a cidade possui 6.294 moradores. No entanto, o que mais chama atenção não é o tamanho da população, mas a proporção de gestações múltiplas, considerada cerca de dez vezes superior à média brasileira. Enquanto no mundo estima-se que uma em cada 60 a 80 gestações resulte em gêmeos, em Cândido Godói esse número é significativamente mais alto.
O fenômeno não ocorre de maneira uniforme em todo o município. A localidade de Linha São Pedro, na zona rural, é apontada como o principal epicentro da incidência de gêmeos. Estudos realizados desde a década de 1990 já identificavam uma concentração expressiva na região.
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Cambridge revelou que, à época, cerca de 11% da população local era formada por gêmeos — índice muito superior à média estadual registrada naquele período, de aproximadamente 1,8%. Apesar da ausência de levantamentos recentes com a mesma abrangência, a tendência de alta incidência permanece sendo observada.
Ciência busca respostas para fenômeno raro
Ao longo das últimas décadas, o caso de Cândido Godói tem sido objeto de investigação científica. Pesquisadores de diferentes áreas, especialmente da genética, já realizaram entrevistas, análises de histórico familiar e coleta de material genético dos moradores.
Uma das hipóteses mais aceitas envolve o chamado “efeito fundador”, associado ao isolamento populacional e à endogamia — prática de casamentos entre pessoas da mesma comunidade ao longo de gerações. Esse cenário pode favorecer a repetição de determinadas características genéticas, aumentando a probabilidade de gestações múltiplas.
Além disso, a formação histórica do município também é considerada relevante. A cidade foi colonizada por um número reduzido de famílias europeias, principalmente de origem alemã. Atualmente, cerca de 80% da população descende desses imigrantes, o que reforça a ideia de uma base genética relativamente homogênea.
Apesar das diversas linhas de investigação, especialistas destacam que ainda não há consenso científico definitivo capaz de explicar plenamente o fenômeno, seja para gêmeos univitelinos (idênticos) ou bivitelinos (não idênticos).

Mitos e teorias alimentam imaginário popular
Paralelamente às explicações científicas, o mistério em torno de Cândido Godói também deu origem a teorias populares e especulações históricas. Uma das mais conhecidas envolve o médico alemão Josef Mengele, que atuou no regime nazista e ficou famoso por realizar experimentos com gêmeos durante a Segunda Guerra Mundial.
Segundo relatos, Mengele teria passado pela região nos anos 1960, após fugir para a América do Sul. A hipótese sugere que ele poderia ter conduzido experimentos na cidade, influenciando o número de nascimentos múltiplos. No entanto, pesquisadores e historiadores afirmam que não existem evidências que sustentem essa teoria. Além disso, registros indicam que a incidência elevada de gêmeos já era observada antes da suposta passagem do médico pela região.
Outra crença popular bastante difundida está relacionada à chamada “Fonte da Fertilidade”, localizada na comunidade de São Pedro. De acordo com a tradição local, pessoas que consomem a água da fonte teriam maiores chances de ter filhos gêmeos. Embora não haja comprovação científica, a história se tornou parte do folclore regional.
Fenômeno impulsiona turismo e identidade cultural
Mais do que uma curiosidade científica, a presença marcante de gêmeos passou a integrar a identidade cultural de Cândido Godói. O município investiu na valorização desse aspecto, transformando-o em atrativo turístico.
Entre as iniciativas está o Museu dos Gêmeos, que reúne fotografias, documentos históricos e relatos de moradores. O espaço preserva a memória local e oferece aos visitantes um panorama sobre o fenômeno que tornou a cidade conhecida internacionalmente.
Além disso, o município promove eventos temáticos, incluindo um festival de gêmeos realizado a cada dois anos. O encontro reúne centenas de irmãos, além de atrair pesquisadores, jornalistas e curiosos de diversas partes do Brasil e do exterior.
Comunidade convive com naturalidade
Para quem vive em Cândido Godói, o que parece extraordinário para visitantes é encarado com naturalidade. Relatos de moradores indicam que, durante décadas, a presença de gêmeos foi algo comum no cotidiano escolar, familiar e social.
Crianças crescem convivendo com colegas que compartilham características físicas idênticas ou muito semelhantes, o que contribui para a percepção de que a condição é parte da normalidade local. Em alguns casos, a ausência de gêmeos em determinadas famílias chega a causar estranhamento.
Mesmo após anos de estudos, a explicação definitiva para a alta incidência de gêmeos em Cândido Godói ainda não foi estabelecida. Pesquisadores seguem investigando possíveis fatores genéticos, ambientais e sociais que possam esclarecer o fenômeno.
O município também participa de estudos comparativos com outras regiões do mundo que apresentam características semelhantes, na tentativa de identificar padrões ou variáveis comuns.






