A escalada de tensões militares no cenário internacional impulsionou as discussões sobre segurança e soberania durante a Cúpula Popular do Brics, realizada no Rio de Janeiro. Representantes de 21 países do Sul Global avaliaram o papel do bloco diante do avanço militar dos Estados Unidos e da Otan em diferentes regiões do mundo.
Apesar das discussões sobre defesa, especialistas lembram que o Brics não mantém um exército permanente ou uma capacidade bélica unificada, atuando apenas como uma aliança de cooperação política e econômica.

Pressões externas reacendem pauta de segurança
Para o professor Jonnas Vasconcelos, da Universidade Federal da Bahia, a conjuntura global é marcada por crises simultâneas — econômicas, sociais, ambientais e políticas — que colocam o bloco diante de novos desafios. Ele destacou que ações unilaterais de Washington têm enfraquecido instituições como a ONU, reduzindo a capacidade de mediação internacional.
Vasconcelos também citou violações de direitos internacionais, como a ofensiva contra o povo palestino e as ameaças à Venezuela, defendendo que o Brics pode ter um papel relevante ao pressionar por soluções diplomáticas e contrapor medidas agressivas.
Brics como espaço político de resistência
O jornalista Breno Altman defendeu, durante o evento, que o Brics avance para uma postura mais firme de resistência geopolítica à chamada “Ordem Antiga”, liderada pelo Ocidente. O encontro reforçou a percepção de que o bloco deve se consolidar como espaço de articulação política entre países do Sul Global.
O analista Marco Fernandes, um dos organizadores da Cúpula Popular e membro do Conselho Civil do Brics, ressaltou que a participação social é fundamental para dar legitimidade ao bloco e construir propostas conjuntas. Ele destacou ainda que a presidência brasileira do Brics ampliou o diálogo entre governo e sociedade civil.
Desdolarização ganha protagonismo nas discussões
Uma das pautas econômicas mais fortes do encontro foi a desdolarização. Fernandes citou iniciativas em países asiáticos que utilizam sistemas de pagamento instantâneo semelhantes ao Pix, permitindo transações bilaterais sem recorrer ao dólar — o que reduz custos e simplifica operações comerciais.
Para os analistas, a redução da dependência da moeda norte-americana é um processo gradual, mas considerado estratégico tanto do ponto de vista econômico quanto político.
Limites e desafios das instituições do bloco
Mesmo com a expansão do Brics nos últimos anos, suas instituições ainda enfrentam limitações. O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), presidido por Dilma Rousseff, desembolsou menos de US$ 3 bilhões em financiamentos no ano passado — valor considerado insuficiente para atender às necessidades dos países membros.
O Arranjo Contingente de Reservas, pensado como alternativa ao FMI, também foi citado como instrumento ainda pouco explorado. Fernandes defendeu que o NBD amplie recursos e adote uma orientação mais voltada a setores populares, incluindo cooperativas e organizações de trabalhadores.





