A redução no número de famílias atendidas por programas sociais passou a ganhar força em um estado que também registrou forte crescimento na geração de empregos formais. O movimento ocorreu ao mesmo tempo em que quase 60 mil vagas com carteira assinada foram abertas, cenário que chamou atenção pelos impactos diretos no mercado de trabalho.
Santa Catarina aparece hoje como o estado com o menor percentual de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família em todo o Brasil. Dados divulgados pelo IBGE mostram que a participação caiu de 4,3% dos domicílios em 2024 para 3,9% em 2025, enquanto o estado ampliou a oferta de empregos.
Somente no último ano, Santa Catarina criou 58,8 mil vagas formais de trabalho. Além disso, o estado alcançou a menor taxa de desemprego do país, com apenas 2,2%, reforçando justamente a relação entre crescimento econômico e queda na procura por benefícios assistenciais.
Santa Catarina lidera queda nos benefícios
Na comparação nacional, Santa Catarina ficou muito abaixo da média brasileira de famílias atendidas pelo Bolsa Família. O levantamento do IBGE aponta que o índice nacional chegou a 17,2%, enquanto estados como São Paulo tiveram 7,6%, Rio Grande do Sul 7,7% e Paraná 8%.
Os números também mostram outro destaque catarinense. Apenas 6,9% dos domicílios receberam algum rendimento vindo de programas sociais em 2025, incluindo Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada, enquanto a média brasileira alcançou 22,7%.
Ao mesmo tempo, Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, passou a ser citado como exemplo de redução da dependência assistencial. O município conseguiu diminuir em 40% o número de famílias cadastradas no Bolsa Família após criar uma estratégia voltada para recolocação profissional.
Estratégia focou em emprego formal
Em novembro de 2024, Bento Gonçalves tinha 2.115 famílias no programa. Já em abril de 2026, o total caiu para 1.266. Segundo dados do Caged, somente em 2025 a cidade criou 1.104 empregos com carteira assinada, resultado 2,5% superior ao registrado no ano anterior.
A política implantada passou a conectar beneficiários do Bolsa Família com empresas locais que buscavam trabalhadores. O ex-prefeito Diogo Siqueira explicou que equipes da prefeitura visitavam residências para identificar pessoas com condições de retornar ao mercado formal.
Os trabalhadores foram direcionados para setores como indústria do vinho, agricultura familiar da uva, turismo, móveis e metalmecânica. Com cerca de 128 mil habitantes, Bento Gonçalves possui uma economia diversificada, fator considerado importante para absorver novos funcionários.
Diogo Siqueira afirmou que “a melhor assistência social é o trabalho”. Já o secretário Eduardo Virissimo destacou que o principal objetivo da política pública era devolver autonomia financeira às famílias, permitindo justamente que elas deixassem de depender dos benefícios.

Debate sobre dependência cresce
O tema também entrou no centro de estudos econômicos recentes. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, realizado pelo pesquisador Daniel Duque, apontou que, para cada duas famílias que recebem Bolsa Família, uma acaba deixando a força de trabalho.
O estudo mostrou ainda que nove estados brasileiros possuem mais beneficiários do programa do que trabalhadores com carteira assinada. Em fevereiro de 2026, existiam 38,6 beneficiários para cada 100 empregados formais, indicador visto por especialistas como sinal de desequilíbrio econômico.
Claudio Shikida, professor de economia do Ibmec, afirmou que o programa não foi criado para sustentar gerações inteiras de maneira permanente. Já Ricardo Gomes, CEO do Instituto Millenium, declarou que o avanço dos benefícios pode acabar concorrendo diretamente com empregos de baixa qualificação.





