Um fenômeno climático que costuma mexer com o equilíbrio das chuvas ao redor do mundo volta a preocupar autoridades, especialmente em regiões que dependem diretamente de reservatórios. No entanto, os efeitos não aparecem de forma imediata, o que justamente aumenta o risco de decisões tardias diante de um cenário que já começa a dar sinais de alerta.
Esse fenômeno é o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial, algo que ocorre entre dois e sete anos. Ele altera ventos e padrões atmosféricos, provocando impactos globais, com secas em algumas regiões e chuvas intensas em outras, além de intensificar eventos extremos.
Reservatórios sob pressão em São Paulo
A possibilidade de um evento mais intenso no segundo semestre acende preocupação direta sobre o abastecimento na Grande São Paulo. No entanto, o impacto não depende apenas da força do fenômeno, mas também do comportamento das chuvas nos meses anteriores, que já mostram sinais preocupantes.
A previsão indica que entre abril e junho pode chover praticamente metade do esperado, o que já pressiona o sistema. Justamente por isso, a região metropolitana enfrenta redução de pressão no fornecimento de água durante a noite e madrugada, tentando preservar os níveis dos reservatórios.
O principal ponto de atenção é o Sistema Cantareira, que voltou a apresentar números considerados críticos. Até mesmo sem a atuação direta do fenômeno, o nível estava em 43,7% da capacidade, bem abaixo dos 58,6% registrados no mesmo período do ano anterior, indicando perda significativa.
Essa diferença representa cerca de 147 bilhões de litros de água, volume suficiente para abastecer toda a região metropolitana por aproximadamente 40 dias. No entanto, o impacto só não é mais grave porque outros sistemas ainda conseguem compensar parcialmente essa queda.

Interligação ameniza
O Sistema Integrado Metropolitano tem ajudado a evitar um cenário mais crítico, ficando apenas 3,5 pontos percentuais abaixo do registrado no ano anterior. Ainda assim, essa margem não elimina o risco, principalmente se as condições climáticas continuarem desfavoráveis nos próximos meses.
Reservatórios como Guarapiranga e Alto Tietê estão em situação melhor na comparação com 2025, o que garante uma certa resiliência. No entanto, especialistas apontam que essa condição pode mudar rapidamente caso períodos de estiagem e veranicos se tornem mais frequentes.
Esses períodos secos, comuns durante a atuação do fenômeno, dificultam a recuperação dos mananciais. Justamente por isso, o Cantareira segue como o sistema mais vulnerável, podendo sofrer ainda mais caso o cenário climático se confirme ao longo do ano.

Previsões ainda geram incerteza
Segundo o meteorologista Melk Duarte, do Instituto Nacional de Meteorologia, o fenômeno costuma ter efeito indireto em São Paulo. No entanto, ele destaca que há aumento de bloqueios atmosféricos, o que reduz a ocorrência de chuvas no estado.
Ainda não é possível determinar exatamente o volume de chuva que a região deve receber, mas há uma expectativa clara sobre a intensidade. Segundo Duarte, o próximo evento pode ser no mínimo forte, podendo até mesmo atingir níveis considerados muito fortes.
A classificação depende do aumento da temperatura das águas do Pacífico, que começa em 0,5°C e pode ultrapassar 2°C em eventos mais intensos. Os efeitos, no entanto, demoram cerca de dois meses para aparecer, com previsão de impacto mais evidente a partir de setembro.
Já o professor Antônio Carlos Zuffo, da Universidade Estadual de Campinas, afirma que prever o impacto exato ainda é um “exercício de futurologia”. Mesmo assim, ele reforça que o cenário exige atenção, justamente por envolver fatores que podem se agravar rapidamente.





